Assisti hoje à última apresentação da primeira temporada da peça À Sombra das chuteiras imortais. Uma livre adaptação das famosas crônicas esportivas do célebre tricolor, Nelson Rodrigues (o eterno homenageado deste blog) Henrique Tavares, direção dele, com Gláucio Gomes, Ingrid Conte, Anderson Cunha, Crica Rodrigues e César Amorim.
A partir de fins de junho, portanto antes de terminar a Copa, a segunda temporada terá início no Teatro Gláucio Gil (não confunda com o ator Gláucio Gomes, companheiro tricolor) em Copacabana, ao lado da Estação Cardeal Arco Verde.
A trama central, diz o programa, gira em torno da crônica "O grande dia de Otacílio e Odete" uma crônica esportiva com ares de "A Vida como ela é..."
Henrique costura trechos de outras crônicas, como "O craque na capelinha", "Complexo de vira-latas" e "O mais belo futebol da terra".
Na trama, Otacílio, a mulher, Odete, e o melhor amigo, Cunha, ouvem juntos todos os jogos da Copa de 1958, ainda assombrados pela derrota de 50, em pleno Maracanã. A desconfiança vai se transformando em otimismo velado, até na véspera da final, o tio de Otacílio revela ao sobrinho seu maior temor (depois de uma nova derrota da seleção): sua esposa o trai. O tio então faz a exigência homicida. O sobrinho deve lavar a honra com sangue, assassinando a amada, assim como fizera o próprio com sua esposa infiel.
Otacílio está confuso e perdido e sua maior angústia é ter descoberto a traição justamente na véspera da final. Estava decidido. Mataria a esposa após o jogo. Ou durante, se o jogo estivesse favorável á Suécia. Não percam, no Gláucio Gil, quando voltar em cartaz.
Abaixo alguns croquis que consegui fazer, com a caneta nanquim 0,3, enquanto conseguia alguma luz na fila F, onde eu estava.
Em casa, finalizei com aguadas de nanquim cores de avelã e sépia e alguns detalhes a bico de pena com nanquim preto.
Saudações tricolores!
Inspirados nas três cores que traduzem tradição, o Blog Cultura Tricolor procura oferecer ao exigente torcedor tricolor, um entretenimento à altura de seu bom gosto, com tudo que está relacionado à cultura e ao nosso tricolor: falamos de música, teatro, cinema, charges, história, artes visuais. Desse conjunto, selecionamos tudo que está relacionado aos nossos símbolos, às nossas conquistas,aos nossos ídolos e às inúmeras homenagens de ilustres tricolores.
Quem sou eu
- Flavio Pessoa
- Tricolor desde vidas passadas... mas com a lembrança mais remota de torcedor em 1983, no gol do Assis aos 45 do segundo tempo. Um começo e tanto! Interesses diversificados sobre artes em geral (literatura, cinema, teatro, música, quadrinhos, animação, artes plásticas).
sábado, 24 de maio de 2014
segunda-feira, 22 de julho de 2013
De Zezé Moreira a Abel Braga, técnicos duradouros.
Campeão carioca e brasileiro no mesmo ano...quantas vezes conseguimos tal feito? Só em 1984 e 2012.
Abel Braga tem tudo a ver com isso. O técnico além de ter dado um padrão de jogo para o time, é admirado e respeitado pelos jogadores e pela torcida.
Em 2005, Abel já havia vencido um carioca com requintes de crueldade contra o adversário, com um gol nos acréscimos, nosso cartão de visitas. Infelizmente, após 5 derrotas segiuidas e a não classificação no G4 da Libertadores, a diretoria preferiu dar voz aos últimos reultados e demitiu o técnico.
8 anos depois, a meóldia ameaça-se repetir.
Essa velha mania idiota dos clubes brasileiros não pode continuar e parece que , por enquanto, o bom senso prevaleceu. Vejam abaixo:
://br.esporteinterativo.yahoo.com/noticias/dirigente-fluminense-garante-manuten%C3%A7%C3%A3o-abel-174003839--sow.html
Curioso que os dirigentes brasileiros que tanto copiam o Europeu, só não copiam o que é bom. A fiolosofia de manter um técnico, de não demiti-lo depois de algumas derrotas, raramente se viu por aqui. Teve Telê no São Paulo e Zezé Moreira no Fliuminense, da qual vou falar abaixo. Ainda que tenha ficado apenas 4 anos seguidos.
Para lembrar que bons times que formam uma geração campeã costumam manter os técnicos por muito temnpo, lembremos um pouco de Alfredo Moreira Júnior, irmão do tb técnico SAymoré Moreoira, Zezé Moreira, que treinou o Fluzão entre 51 e 54, conquistou o carioca de 51 e o Mundialito de 52. Depois venceu tb o carioca de 59 e o Rio-São Paulo de 60. (ainda bem antes do brasileirão). Depois voltou uma última vez para treinar o time em 73, mas nesse ano não chegou a ser o técnico que levantaria o carioca daquele ano, vencido numa final dramática contra o Flamengo, quando o técnico era David Ferreira, o Duque.
Zezé Moreira nasceu em Miracema em 17 e faleceu em Vila Isabel, bairro de Noel, no Rio de Janeiro, em 98, aos 80 anos.
Ainda ficaria imortalizado num filme, de Braz Chediak, baseado na peça Bonitinha, mas Ordinária do tricolor Nelson Rodrigues, "patrono" desse blog. Na cena em que o amante cruza com o marido traído na saída de casa, o primeiro comenta com o segundo: E o Fluminense? E o outro: Zezé Moreira!
Um amigo conhecedor de Nelson me garantiu que foi o prórpio que reescreveu a cena, acrescentando os diálogos na hora, pouco antes de gravar.
Na ilustra abaixo, inspirada em foto da agência O Globo, Zezé Moreira, em 53, pegando pesado no treino nas Laranjeiras.
Agora o zagueirão Abel, este começou a carreirira como jogador nas divisões de base do nosso tricolor em 68, passando aos profissionais em 71, onde já faturou o primeiro tíitulo, repetindo a dose em 73, 75 e 76.
Já cpomo treinador, demorou a ter oportunidade de comandar o nosso tricolor. Mas assim que assumiu já venceu o carioca, com fortes doses de emoção, como já mfoi relatado lá em cima.De volta ao Flu em 2011, fez ótimaa campanha no brasileirão, ficando em terceiro, ano passado ganhou quase tudo. Carioca e brasileirão. Agora, apesar de o time estar jogando melhor sempre, com a sequencia de resultados negativos, por iromnia, justamente por conta de uma péssima zaga (que já deram o que tinham que dar de bom no clube), falaram em tirá-lo de lá...
Numa boa, dr., Celso Barros, o clube funciona melhor se o sr., sói solytar o dinheiro...já poercebeu que quando o sr., resolve interferir, não dá certo?
Precisamos ganhar o próximo jogo contra o Grêmio, sobretudo pra garantir o Abel.
Gostaroia que a torcida o apoiasse muito na arquibancada.
Fica, Abel!
Abel Braga tem tudo a ver com isso. O técnico além de ter dado um padrão de jogo para o time, é admirado e respeitado pelos jogadores e pela torcida.
Em 2005, Abel já havia vencido um carioca com requintes de crueldade contra o adversário, com um gol nos acréscimos, nosso cartão de visitas. Infelizmente, após 5 derrotas segiuidas e a não classificação no G4 da Libertadores, a diretoria preferiu dar voz aos últimos reultados e demitiu o técnico.
8 anos depois, a meóldia ameaça-se repetir.
Essa velha mania idiota dos clubes brasileiros não pode continuar e parece que , por enquanto, o bom senso prevaleceu. Vejam abaixo:
Curioso que os dirigentes brasileiros que tanto copiam o Europeu, só não copiam o que é bom. A fiolosofia de manter um técnico, de não demiti-lo depois de algumas derrotas, raramente se viu por aqui. Teve Telê no São Paulo e Zezé Moreira no Fliuminense, da qual vou falar abaixo. Ainda que tenha ficado apenas 4 anos seguidos.
Para lembrar que bons times que formam uma geração campeã costumam manter os técnicos por muito temnpo, lembremos um pouco de Alfredo Moreira Júnior, irmão do tb técnico SAymoré Moreoira, Zezé Moreira, que treinou o Fluzão entre 51 e 54, conquistou o carioca de 51 e o Mundialito de 52. Depois venceu tb o carioca de 59 e o Rio-São Paulo de 60. (ainda bem antes do brasileirão). Depois voltou uma última vez para treinar o time em 73, mas nesse ano não chegou a ser o técnico que levantaria o carioca daquele ano, vencido numa final dramática contra o Flamengo, quando o técnico era David Ferreira, o Duque.
Zezé Moreira nasceu em Miracema em 17 e faleceu em Vila Isabel, bairro de Noel, no Rio de Janeiro, em 98, aos 80 anos.
Ainda ficaria imortalizado num filme, de Braz Chediak, baseado na peça Bonitinha, mas Ordinária do tricolor Nelson Rodrigues, "patrono" desse blog. Na cena em que o amante cruza com o marido traído na saída de casa, o primeiro comenta com o segundo: E o Fluminense? E o outro: Zezé Moreira!
Um amigo conhecedor de Nelson me garantiu que foi o prórpio que reescreveu a cena, acrescentando os diálogos na hora, pouco antes de gravar.
Na ilustra abaixo, inspirada em foto da agência O Globo, Zezé Moreira, em 53, pegando pesado no treino nas Laranjeiras.
Agora o zagueirão Abel, este começou a carreirira como jogador nas divisões de base do nosso tricolor em 68, passando aos profissionais em 71, onde já faturou o primeiro tíitulo, repetindo a dose em 73, 75 e 76.
Já cpomo treinador, demorou a ter oportunidade de comandar o nosso tricolor. Mas assim que assumiu já venceu o carioca, com fortes doses de emoção, como já mfoi relatado lá em cima.De volta ao Flu em 2011, fez ótimaa campanha no brasileirão, ficando em terceiro, ano passado ganhou quase tudo. Carioca e brasileirão. Agora, apesar de o time estar jogando melhor sempre, com a sequencia de resultados negativos, por iromnia, justamente por conta de uma péssima zaga (que já deram o que tinham que dar de bom no clube), falaram em tirá-lo de lá...
Numa boa, dr., Celso Barros, o clube funciona melhor se o sr., sói solytar o dinheiro...já poercebeu que quando o sr., resolve interferir, não dá certo?
Precisamos ganhar o próximo jogo contra o Grêmio, sobretudo pra garantir o Abel.
Gostaroia que a torcida o apoiasse muito na arquibancada.
Fica, Abel!
segunda-feira, 1 de abril de 2013
O Rio de Janeiro em sues conflitos sociais nas charges do Jornal dos Sports
Figura 1 – Nas charges de Molas, as referências
geográficas do Rio de Janeiro são as mais características. Molas não delimita
os diferentes espaços da cidade, de acordo com as classes sociais. Todos os
mascotes costumam frequentar os mesmos ambientes. Aqui, um vestígio de uma
época em que, como veremos, Copacabana vivia seu apogeu, enquanto espaço
privilegiado da cidade. JS, 01 de abril
de 1945.
Figura 2 - Os espaços urbanos da cidade são
delimitados de forma caricatural na perspectiva de Henfil, em que duas grandes
regiões mantém-se em constante conflito. A Zona Sul, área mais nobre da cidade,
bem como o subúrbio são representados por seus elementos e símbolos mais
significativos: a praia, o Pão de Açúcar, com o Cristo Redentor situado sobre
ele, em vez de sobre o Corcovado, onde o mesmo realmente está. JS, 24 de janeiro de 1970.
Este post não trata apenas de questões exclusivas ao nosso querido Fluzão. Aqui reproduzo, tentando amenizar a linguagem acadêmica, parte de um capítulo de minha dissertação sobre as célebres charges de Molas e Henfil, principais criadores das mascotes dos times cariocas, hoje conhecidas por muitos torcedores. Mas, por se tratar de assunto ligado à história do Rio e à memória afetiva do futebol, está mais que justificada sua presença no blog. Vamos ao assunto.
Duas charges, dois diferentes "Rios" de Janeiro. As duas abordam o mesmo assunto: o futebol, que nos dois momentos interessava a uma
parcela significativa da cidade, e foram publicadas no mais popular diário
esportivo do país, o Jornal dos Sports.
Uma primeira diferença surge logo na identificação de localizações
conhecidas da cidade. A primeira tem como cenário, a praia de Copacabana, no
momento em que o bairro vivia seu apogeu. Pedro Pinchas Geiger, em seu estudo
sobre a evolução urbana nas grandes capitais do país, refere-se à Copacabana como sendo uma "cidade dentro da cidade". O
bairro que se tornara o mais famoso "cartão postal do Rio de
Janeiro", era reconhecido como espaço privilegiado da capital, mais bem servido no que diz respeito ao
comércio, serviços gerais, alternativas de lazer, transporte coletivo, acesso
por grandes avenidas que reduzem drasticamente o tempo de viagem, além do clima
mais ameno da orla oceânica. Além disso, a preferência dada pelos turistas
estrangeiros conferia uma "atmosfera mais cosmopolita" ao bairro.Parte deste glamour acabaria se perdendo na medida em que o famoso
bairro começava a experimentar uma crescente e gradativa popularização, nas
décadas de 1950 e 60, período de intervalo entre os recortes históricos
discutidos nesta pesquisa. Com o advento do concreto armado e a exploração
imobiliária, foram erguidos novos edifícios residenciais com mais apartamentos,
porém mais estreitos, atraindo famílias de classes sociais mais humildes, que
preferiam conviver com menos espaço, em prol da boa localização, e afastando as
classes mais abastadas para os bairros próximos de Ipanema e Leblon.
A charge seguinte estabelece uma
fronteira imaginária entre os afastados bairros de Ramos e Ipanema, em uma
brincadeira que faz parte do jogo de polarizações articulado por Henfil, ao
acentuar os contrastes sociais no Rio de Janeiro. Nas suas charges, Henfil
divide o Rio de Janeiro em duas frentes: a República
Popular de Ramos e a República de
Ipanema Beach. Acentua as diferenças entre as camadas sociais na cidade, dividindo-a em dois
ambientes totalmente distintos. De um lado, a elite, representada pelo bairro
nobre de Ipanema. Do outro, as camadas populares, mais identificadas com
bairros suburbanos, como Ramos. Ainda que se deva levar em conta a acentuação
dos contrastes articulada pelo cartunista, notamos que a referência geográfica
é acrescida em sua charge de uma conotação social com maior relevância do que
na obra de seu antecessor.
A referência à
Copacabana é completamente dispensável nesta charge de Molas, uma vez que não
altera em nada o sentido da piada. Na de Henfil, o oposto. A referência
geográfica é parte da crítica implícita ao conjunto da obra. A delimitação
desta fronteira fictícia parece querer esboçar uma caricatura do abismo social
existente entre as classes sociais mais abastadas e as mais modestas da cidade.
Eles não estão impedidos de ultrapassar a fronteira. Têm liberdade para invadir
o espaço um do outro, mas não sem causar incômodos, constrangimentos ou
conflitos, verbais ou físicos.
Para se compreender um pouco melhor o contexto da charge da praia, é preciso voltar um pouco no tempo. Havia chegado a hora de começar a aquecer os ânimos para a principal disputa da época: o campeonato carioca de futebol. Molas, que já havia repetido a fórmula com as outras competições, começaria a preparar o terreno para apresentar a mais desejada de todas as misses. A pioneira e mais importante Miss Campeonato era uma espécie de "figura alegórica" que representava o aclamado campeonato carioca de futebol, que reunia os principais times do Rio de Janeiro e durava cerca de seis meses. Assim que os mascotes ficaram sabendo da chegada de uma nova filha da sogra, que anuncia seu retorno de um internato de freiras, passaram a se mobilizar para, a todo custo, conhecer os atributos físicos da moça. Em suma, queriam saber se valeria a pena, o esforço da disputa. Na charge de Molas
(figura 1), destacada no alto deste post, encontramos todos os mascotes na praia de Copacabana, tão
espantados quanto decepcionados com os trajes de banho da nova filha da sogra, recém-chegada
de um internato de freiras. Popeye caía duro pra trás e o Almirante comentava
que sua mãe usava um maiô assim. Ao centro da cena, trajando um modelo de maiô
bastante ultrapassado, que lhe cobria o corpo do pescoço aos pés, a futura Miss
45 carregava uma sombrinha, com um ridículo chapéu enfiado na cabeça, e óculos
de aros enormes. Aparentando natural constrangimento, ao perceber-se no centro
das atenções, se pergunta se não estaria muito escandalosa. Seu visual
contrastava com o traje de banho da época de todos os personagens da cena,
incluindo o das duas moças que passavam, sem resistir a comentários maliciosos:
- De que museu saiu aquela mulher?
- É a Miss campeonato 45?
Na charge de Henfil (figura 2), as notícias de um rádio de pilha vêm atrapalhar a tranquilidade do
Cri-cri, torcedor do Botafogo, que curtia sua praia, em Ipanema, refestelado à
sombra de um guarda-sol. “Terminada a partida. Spartak 5x1 Botafogo”. A sonora
goleada deixava extramente preocupado o assustado Cricri, que passa a temer uma
possível e iminente invasão dos adversários, membros da República Popular de
Ramos, à Ipanema. Ao subir em um poste, de posse de uma luneta, visualiza o
Urubu e o Bacalhau correndo em direção à área nobre da cidade. “Putzgrila!” –
exclama. “Já cruzaram a faixa desmilitarizada da Cinelândia e rumam firme para
Ipanema. A partir daí, Henfil procura transmitir a angústia do alvinegro,
mostrando, nos quadrinhos seguintes, a perspectiva de quem olha por uma luneta.
Veem-se apenas os representantes das massas aproximando-se, na medida em que
vão sendo vistos em tamanhos cada vez maiores, até que chegam a extrapolar os
limites do círculo que os envolve e que representa a vista através da luneta.
Chegando à Zona Sul, ansiosos, põem-se a procurar pelo Cri-cri. Suas expressões
sugerem excitação e sadismo. Ao final, o Cricri, que estava escondido em uma
lata de lixo, é descoberto pela dupla ao ser lançado para o alto feito um
foguete e expelir um enorme ovo, que seria levado com entusiasmo pelos rivais,
em júbilo.
Figura 2.3 – Os
espaços da cidade no humor de Henfil são representados de forma a acentuar os
contrastes sociais do Rio de Janeiro. A caracterização desses contrastes são
reforçados aqui como denúncia da diferença de atenção do Estado, se compararmos
as áreas de moradias mais nobres e mais humildes. Contrasta-se, por exemplo, um
cacto na área da República de Ramos, com flores em Ipanema Beach. Nota-se
também a diferença entre o desenho das placas de identificação das duas
regiões. JS, 14 de janeiro de 1970.
Esta outra charge de
Henfil (figura 3) traz apenas o torcedor
alvinegro na sua euforia solitária. Seu traço gestual somente se presta, à minúcia de detalhes, se servir a uma
dose a mais de escárnio. Quando precisa delimitar, por exemplo, a fronteira
fictícia entre a República de Ramos e
de Ipanema Beach, faz questão de
diferenciar as placas. A da elite, fincada sobre um jardim florido, mais
estreita, sutil e bem decorada, apresenta adornos nas extremidades, enquanto a
do povo é maior, mais rude e sem maiores “delicadezas”. No espaço reservado a
Ramos, percebe-se a insólita presença de um cacto. Além da referência sutil ao
tratamento diferenciado dado pelos governantes às áreas mais nobres da cidade,
o cacto pode, talvez, sugerir a ideia de um clima “árido” nessas regiões, ou
uma associação entre todas as áreas carentes do país, como a Caatinga,
representada por Henfil, nas tiras da Graúna e Zeferino.
A decepção do alvinegro
é salientada pelo vazio cenográfico dos quadros. É possível que este vazio não
estivesse assim tão longe da realidade das ruas, uma vez que o momento era de
Copa do Mundo. Mais precisamente, a do México, em 1970, que consagraria a
seleção brasileira como potência mundial no futebol, e o Brasil levaria
definitivamente a taça Jules Rimet, ao conquistar o tricampeonato na primeira
edição do torneio mundial transmitido ao vivo pela televisão. O motivo da
alegria do Cri-cri era pela participação dos jogadores alvinegros, na vitória
da seleção em uma partida amistosa. Para além do deboche direcionado à patética
euforia diante de motivo tão banal para celebração, ou direcionado a uma
desmoralização ainda maior, as charges de Henfil destacadas ainda denunciam, de
modo geral, uma ampliação desordenada da malha urbana, onde espaços mais nobres
mantêm-se sob domínio de uma casta privilegiada, enquanto as carentes e
longínquas regiões periféricas testemunham prolongados períodos de expansão
demográfica.
Procuramos observar
aqui, através do contexto do desenvolvimento urbano da cidade, que aspectos
foram capazes de influir no trabalho de Molas e Henfil. Os cartunistas
vivenciaram grandes transformações na cidade em seus períodos, no que diz
respeito à política, à sociedade, à urbanização, a valores morais e culturais.
O Rio de Janeiro expandia-se e industrializava-se em ritmo acelerado. Entre um
momento e outro, perderia a condição de Distrito Federal. Três anos após a
transferência da capital para Brasília, Geiger enumera uma série de fatores que
dimensionam a importância para o desenvolvimento da cidade, de ter usufruído ou
mantido algumas das benesses adquiridas com a posição de Capital da República.
Entre diversos dados apontados, destaca-se a renda do setor terciário
correspondente à manutenção do governo federal, o número de servidores públicos (mais de 200 mil, segundo o autor) e
boa parte dos organismos econômicos oficiais mantiveram sua sede na cidade. Mesmo com a perda da
condição de capital federal, a população do município do Rio de Janeiro
passaria de 1.759.277 habitantes em 1940, para 3.330.431 em 1960. Este crescimento populacional evidentemente não ocorreu de maneira bem
distribuída, mas sempre com maior intensidade ou mais irregularmente nas zonas
suburbanas do que na área nobre da cidade. Sobre a população concentrada nas
áreas tidas como menos favorecidas da cidade, basta verificar que o aumento
populacional apurado representa um percentual que sobe de 48% da população da
cidade em 1940, para 55% em 1960.
É válido ressaltar
ainda que o espaço fictício das tiras de Henfil ignora diferentes gamas entre as classes sociais contrastantes, seja pelo lado da elite, seja entre as regiões mais
periféricas da cidade. Uma vez que as diferentes localidades da cidade indicam
diferentes condições socais, essa caricatura que Henfil elabora dos espaços
sociais do Rio de Janeiro ganham maior relevância na sua obra do que a
caricatura que Molas faz da cidade. Se a população da Zona Sul envolve famílias
de diferentes níveis sociais, podemos verificar, segundo Geiger, nuances
bastantes distintas nos bairros e regiões do subúrbio carioca, onde Bangu se
notabilizaria pela forte presença de sua indústria têxtil, Madureira por
importantes centros comerciais e Marechal Hermes por servir de área residencial
de militares. É todo este universo,
somado ao das favelas cariocas espalhadas pela cidade, que está representado na
República Popular de Ramos. A caricatura aqui assume seu papel de acentuar os
traços mais característicos, ao desprezar diferenças de nível social radicais, seja entre os grupos formados
pelas classes mais favorecidas, seja entre as camadas mais populares. Ao
esboçar a caricatura da sociedade carioca, Henfil procura enfatizar o já forte
contraste social do Rio de Janeiro. Através da ampliação do fenômeno, confronta
realidades sociais mais privilegiadas com as mais modestas da população.
A charge de Molas não associa Copacabana a um ícone elitista, mas podemos imaginar a intenção de identificar uma localidade conhecida e afetiva à população (provavelmente também para o próprio cartunista, morador do bairro) e que, pelas afirmações de Geiger e Abreu, vivia seu apogeu. Se a praia, a princípio, é reconhecida enquanto espaço público e de livre acesso à população, independente de sua classe social, não se estranha a presença dos cinco personagens mais associados aos times tidos como “pequenos” no cenário da praia. No entanto, podemos observar os trajes inapropriados ao banho de alguns dos personagens “suburbanos”. Enquanto os que representam os times “grandes” estão todos em trajes de banho, podemos observar o malandro, do Madureira, com seu terno de sempre; o operário do Bangu, com seu uniforme, e o seu Leopoldino, do Bonsucesso, com os seus inseparáveis paletó e guarda-chuva. Molas parece querer evidenciar os limites sociais no uso não democrático deste espaço público, ao frisar que apenas os representantes da “elite” do futebol têm acesso aos lazeres.
A charge de Molas não
associa Copacabana a um ícone elitista, mas podemos imaginar a intenção de
identificar uma localidade conhecida e afetiva à população (provavelmente
também para o próprio cartunista, morador do bairro) e que,
pelas afirmações de Geiger e Abreu, vivia seu apogeu. A irrelevância desta
identificação para a compreensão da charge, a meu ver, só alimenta a hipótese
de que a intenção do cartunista seria apenas situar a cena em uma praia bem
movimentada, a mais famosa da época, onde a população carioca se encontrava nos
domingos de sol. Se a praia, a princípio, é reconhecida enquanto espaço público
e de livre acesso à população, independente de sua classe social, não causa
espécie a presença dos cinco personagens mais associados aos times tidos como
“pequenos” no cenário da praia. No entanto, podemos observar os trajes
inapropriados ao banho de alguns dos personagens “suburbanos”. Enquanto os que
representam os times “grandes” estão todos em trajes de banho, podemos observar
o malandro, do Madureira, com seu terno de sempre; o operário do Bangu, com seu
uniforme, e o seu Leopoldino, do Bonsucesso, com os seus inseparáveis paletó e
guarda-chuva. Molas parece querer evidenciar os limites sociais no uso não
democrático deste espaço público, ao frisar que apenas os representantes da
“elite” do futebol têm acesso aos lazeres.
O momento registrado
por Molas remete a um processo de popularização de Copacabana que se
intensificaria a tal ponto que, no período descrito por Henfil, o bairro já não
convence mais como representativo desta elite. Após a abertura do Túnel Velho,
ligando Botafogo a Copacabana, na última década do século XIX, esta região da
cidade passaria a crescer em ritmo cada vez maior, com a incorporação à urbanização de Copacabana, Ipanema e Leblon,
transformando-se, no decorrer do século XX, no espaço privilegiado do Rio de
Janeiro, onde se concentraram as camadas mais abastadas da cidade. Com o barateamento dos custos das obras e os investimentos públicos estimulando
a construção civil, o processo de verticalização foi se intensificando em
Copacabana desde fins da década de 1930.Parte da classe média começava a poder realizar o sonho de morar na Zona Sul, e
essa expansão foi nitidamente maior em Copacabana, onde a oferta de comércio e
serviços só fazia crescer.
“(...)
graças ao seu conteúdo social e ao dos bairros vizinhos, de constituir uma
clientela exigente, numerosa e concentrada, [o bairro se] distingue do restante
da zona residencial. Por tudo isso, Copacabana é uma cidade dentro da cidade”. Pedro Pinchas Geiger.
Praia e bares: a sensação do lazer carioca no auge de Copacabana.
Av. Nossa Senhora de Copacabana e a verticalização do bairro, nos anos 1940-50.
Assiste-se a partir dos anos 1940 a um enorme boom imobiliário em Copacabana, e o crescimento de edificações mais modernas, de vários pavimentos”. Copacabana, entre 1940 e 1960, viu
sua população triplicar, pulando de 74.133 para 240.347 habitantes. A explosão demográfica
em Copacabana, que atraía principalmente as famílias de renda mais modesta, foi
afastando os mais abastados em direção ao Leblon, passando evidentemente por Ipanema, que passaria a se tornar um bairro símbolo
da elite carioca, como sublinha Henfil. Ainda que a República de Ipanema Beach, imaginada por Henfil, compreendesse
toda a Zona Sul, Copacabana talvez já não fosse mais o bairro adequado a
representar a elite.
Av. Vieira Souto, Ipanema, anos 1970. Curioso predomínio de fuscas.
Acaso da foto ou exagero de Henfil? A paisagem, no entanto, é nobre como em sua Ipanema Beach.
Capa do disco Garota de Ipanema. A Bossa Nova teria ajudado a levar parte do glamour (e do processo de popularização) de Copacabana para Ipanema?
Referências
GEIGER, Pedro Pinchas. Evolução da Rede
Urbana Brasileira. Rio de Janeiro, Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais
(MEC), 1963, p.174-75.
ABREU, Mauricio de. A evolução urbana do
Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPP, 2008 (4 ed), p.109, tabela 5.6; p.117,
tabela 5.9.
BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cômico. Rio de Janeiro:
Editora Guanabara, 1987, pp. 22-4. Para maiores considerações diversas sobre
caricatura, charge e cartum, ler Introdução da presente dissertação, p. 16.
Prontuário 14 269/44, Serviço de Registro
de Estrangeiros SPMARF/ RJ RNE 300.026, 11ª folha, Requerimento de registro
permanente, solicitado em 18 de dezembro de 1944.
PESSOA, Flavio. Humor, futebol, política e sociedade nas charges do Jornal dos Sports: um estudo comparativo entre a obra de Lorenzo Molas (1944-1947) e Henfil (1968-1973). Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em História Comparada. UFRJ, 2013.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
2012 Um ano de comemorações
Ilustração minha, auto-retrato da comemoração pelo tetra, na casa do casal de amigos
Cleyton e Fernanda Castelo Branco, no dia 11 de novembro de 2012.
Eis que o time das vitórias dramáticas, cardíacas, de gols derradeiros nos minutos finais da peleja, acabou sendo campeão com 3 rodadas de antecedência. Com isso, a conquista me pegou de surpresa e bem no meio de tanto trabalho, de modo que o blog Cultura Tricolor não teve como ser atualizado e cometeu o pecado de deixar passar em branco esta nossa última conquista. Começo hoje e devagar, a corrigir este erro imperdoável, pois os nossos guerreiros merecem todas as nossas homenagens.
Em meio a um congresso em São Paulo, acabei vendo o jogo na casa de um super simpático e hospitaleiro casal de amigos paulistanos, ela, corinthiana, e ele, São paulino. O flagrante de mim mesmo, que reproduzi em desenho (acima) reflete um momento que mostra sua imensa paciência e delicadeza. Abriram a janela para que eu pudesse extravasar e berrar o meu: "tetra-campeão" para a vizinhança. Acabado o jogo, fomos, eu e a minha companheira Roberta de Freitas direto pro aeroporto. Chegando ao Rio, fui evidentemente às Laranjeiras, recepcionar os guerreiros, cujas fotos, preciso receber do meu irmão Celso Taddei que me acompanhou naquela noite emocionante e que aparece nas outras ilustrações, flagrantes das comemorações pelo carioca e pelo brasileirão.
Saudações tricolores e que venha o 32º carioca, o penta brasileiro, a Libertadores e o Mundial. Só!
A Classe Teatral Tricolor comparece no Engenhão, parando pra ver mais um show do nosso tricolor:
Meu irmão Celso Taddei, Alfredo Boneff e Carla Faour na torcida teatral do Fluzão.
Celso Taddei, eu e Gláucio Gomes "bebemorando" mais um título no Cervantes, com direito à chope na pressão e sanduíche de Filé com queijo e abacaxi.
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Quando o profeta falhou
Foto de arquivo do Globo. Nota-se que o fotógrafo registrou o momento exato do apito final.
Marcial sobe pra encaixar uma cabeceada do tricolor dentro da área, enquanto os demais jogadores rubro-negros erguem os braços para comemorar a defesa e o final da partida. Infelizmente essa partida entraria para história também por outro motivo que não foi lá muito agradável para nós. Bem, não foi nada agradável, aliás. Pela primeira vez na história, o Fla iria nos vencer numa final de campeonato. O carioca de 63. Vencer não é bem a palavra, já que jogo terminou 0x0, mas como eles tinham chances de empate, contabiliza-se uma vitória para eles. De lá pra cá, já se vão quase cinquenta anos e eles só voltaram a repetir o feito só mais duas vezes.
Mas por que num blog voltado para nossa torcida, a história de uma derrota? Por vários motivos. Primeiro porque somos uma torcida fidalga, que ao contrário das demais, sabemos reconhecer os méritos dos adversários. Segundo, porque podemos nos dar ao luxo, já que temos o triplo de conquistas em cima deles. Terceiro para mostrar como o futebol é surpreendente. porque mesmo as conquistas escritas há seis mil anos podem sofrer um acidente e ter seu destino mudado por um detalhe. Foi assim, pelo menos, que Nelson se esquivou na crônica após a derrota, e após ele ter anunciado na crônica anterior que o profeta anunciara: "Fluminense campeão de 63". E, por fim, porque nem só de conquistas e alegrias, se vive a História. Vejam a nossa derrota em 50, quantos livros, crônicas, filmes já não renderam a nossa tragédia nacional! Grandes times vivem também de suas derrotas, mas só os gigantes tem a grandeza de preservar sua memória.
Semana de Fla-Flu
Nesta crônica publicada n'O Globo no dia 13 de dezembro daquele ano, Nelson fala da euforia antecipada da torcida rubro-negro, tomando o futuro diretor da TV Globo, Walter Clark como exemplo. "Ainda ontem encontrei, no posto 6, o Walter Clark. Nunca vi ninguém tão Flamengo! Pois bem: _ e o W. C. só pensa em Fla-Flu."
***
"Assim que me viu, ele me arrastou para um canto. Conversamos na varanda da TV Rio, diante do mar." Naquela época, Nelson participava na época da famosa mesa redonda esportiva, criada pelo Walter para a TV Rio, com o nome de Grande Revista Esportiva, e mais tarde, já na Globo, passaria a se chamar Resenha Facit. ( http://memoriaglobo.globo.com/Memoriaglobo/0,27723,GYN0-5273-236422,00.html )Sobre Nelson e a resenha esportiva: http://www.youtube.com/watch?v=TlOBVe6yE80
Prosseguindo, Nelson fala do entusiasmo juvenil de W.C., que lhe confidenciava a festa que estava arrumando para comemorar o campeonato. "(...) vai comemorar a vitória com busca-pé, desfile, bombinhas, fogos diversos. Comprou um automóvel branco, nupcial, imaculado, forrado de arminho. E esse carro de noiva vai puxar a passeata. Pensa, também, numa charanga wagneriana pra dar o tom alto á comemoração."
***
"Eu ouço o W. C. e calo. Mas há qualquer coisa de suicida nessa alegria prévia. Amigos, sempre que vai estourar uma catástofe, o ser humano cai num otimismo obtuso, pétreo e córneo." "Eis o que me pergunto: _ com suas comemorações antecipadas, o Walter Clark não estará arranjando a sua Hiroshima particular?"
"Mas vejam a dupla experiência que está reservada ao Walter Clark: _ ele hoje canta a vitória rubro-negra, para domingo chorar a vitória tricolor."
"O profeta já anunciou:_Fluminense, campeão de 63"
Curioso como Nelson passa a ele mesmo se empolgar com a "perigosa" empolgação do torcedor adversário .Nelson acaba transformando o "já ganhou alheio no próprio Já ganhou".
***
Dito isso, pulemos o jogo, em que o placar terminou do mesmo jeito que começou. Jogo "oxo".
Ou por outra, falemos do jogo a partir da crônica posterior do grande dramaturgo, publicada no dia seguinte à partida. Sem medo de entregar os pontos, Nelson não perde a pose. "Amigos, ao terminar o grande Fla-Flu , o profeta tratou de catar os trapos e saiu do Maracanã, mas de cabeça erguida. Era um vencido? Jamais. Vencido como, se temos de admitir esta verdade límpida e total: _ o fluminense jogou mais! Não cabe, contra a evidência de nossa superioridade, nenhum argumento, sofisma ou dúvida. " (...) " Alguém dirá que o profeta não previa o empate. Exato. Mas vamos raciocinar. Houve lances, no fla-Flu que escapariam à vidência até de um Maomé, até um Moisés de Cecil B. de Mille. Lembro-me de um omento em que Marcial estava batido irremediavelmente. O arco rubro-negro abria sete metros e quebrados. E que fez escurinho? Enfiou abola na caçapa? Consumou o gol de cambaxirra?" Simplesmente Escurinho levantou para Marcial. Deu a bola na bandeja, como se fosse a cabeça de São João batista. E eu diria que nem Joana D'arc, com suas visões lindas, ou Maomé, pendurado no seu camelo, ou o Moisés de Cecil B. de Mille, do alto de suas alpercatas - Podia imaginar tamanha ingenuidade.
Ou por outra, falemos do jogo a partir da crônica posterior do grande dramaturgo, publicada no dia seguinte à partida. Sem medo de entregar os pontos, Nelson não perde a pose. "Amigos, ao terminar o grande Fla-Flu , o profeta tratou de catar os trapos e saiu do Maracanã, mas de cabeça erguida. Era um vencido? Jamais. Vencido como, se temos de admitir esta verdade límpida e total: _ o fluminense jogou mais! Não cabe, contra a evidência de nossa superioridade, nenhum argumento, sofisma ou dúvida. " (...) " Alguém dirá que o profeta não previa o empate. Exato. Mas vamos raciocinar. Houve lances, no fla-Flu que escapariam à vidência até de um Maomé, até um Moisés de Cecil B. de Mille. Lembro-me de um omento em que Marcial estava batido irremediavelmente. O arco rubro-negro abria sete metros e quebrados. E que fez escurinho? Enfiou abola na caçapa? Consumou o gol de cambaxirra?" Simplesmente Escurinho levantou para Marcial. Deu a bola na bandeja, como se fosse a cabeça de São João batista. E eu diria que nem Joana D'arc, com suas visões lindas, ou Maomé, pendurado no seu camelo, ou o Moisés de Cecil B. de Mille, do alto de suas alpercatas - Podia imaginar tamanha ingenuidade.
"E tem mais. Os profetas de ambos os sexos jamais poderiam contar com a trave. No sgundo tempo, Escurinho mandou uma bomba. nenhum gol foi tão merecido. Pois bem: vem a trave e salva. "
***
A crônica de Nelson não é só lamento., Exalta a torcida rubro-negra, com um certo encanto de observador da cidade: " à saída do estádio, eu vi um crioulão arrancar a camisa diante do meu carro. Seminu como um São Sebastião, ele dava arrancos medonhos. Do seu lábio, pendia a baba elástica e bovina do campeão. mesmo que eu fosse um Drácula, teria de ser tocado por essa alegria que ensopa, que encharca, que imunda a cidade. Não sei se oi time do Flamengo, como time, mereceu o título. Mas a imensa, a patética, a abnegada torcida rubro-negra merece muito mais. Nota-se um tom ambíguo neste elogio, Algo como uma observação divertida, talvez debochada. Frisa-se também, a parcialidade marcante (e assumida) que já imperava por esses tempos na crônica esportiva. Vimos em outros posts do blog, como Henfil tb já tirou sarro na derrota de seu Flamengo para o rival que mais lhe incomodava: nós.
Mas como Nelson também não era de dar o braço a torcer, (vide o episódio: "o video-tape é burro", no link acima) vale observar aqui como ele encerra de forma magistral sua crônica.
"Amigos, eu sei que os fatos não confirmam a profecia. Ao que o profeta pode responder: _ "Pior para os fatos!". É só.
Canal 100:
http://www.youtube.com/watch?v=_uBeLOrNay4 (tricolores, ouçam só até começar aquele hino "detestável").
http://www.youtube.com/watch?v=_uBeLOrNay4 (tricolores, ouçam só até começar aquele hino "detestável").
Ficha Técnica:
Ficha técnica: Flamengo 0 x 0 Fluminense.
Decisão do Campeonato Carioca de 1963.
Data: 15/12/1963.
Local: Maracanã, Rio de Janeiro/RJ.
Fluminense: Castilho; Carlos Alberto Torres, Procópio, Dari e Altair; Oldair e Joaquinzinho; Edinho, Manoel, Evaldo e Escurinho. Técnico: Fleitas Solich.
Flamengo: Marcial; Murilo, Luís Carlos, Ananias e Paulo Henrique; Carlinhos e Nelsinho; Espanhol, Airton, Geraldo e Oswaldo. Técnico: Flávio Costa.
Árbitro: Cláudio Magalhães.
Público pagante: 177.656 (o maior da história em jogos interclubes no mundo).
Público presente: 194.603 (o maior da história em jogos interclubes no mundo).
Renda: CR$ 57.993.500,00 (recorde histórico na época).
Fonte: http://jornalheiros.blogspot.com.br/2009/08/recordar-e-viver-o-fla-flu-de-1963.html
Fonte: http://jornalheiros.blogspot.com.br/2009/08/recordar-e-viver-o-fla-flu-de-1963.html
domingo, 21 de outubro de 2012
Afastando o "Já ganhou".
"Amigos, o "Já ganhou" é um resultado de alma muito brasileiro. Quem não se lembra de 50? Entramos por um cano deslumbrante, e por quê? Justamente, porque o Brasil "ganhou antes" e não na hora."
Adivinham a autoria? ...Pois não dou três segundo pra pensar: Nelson Rodrigues, óbvio!
Provavelmente nunca saberemos, no entanto, se foi o nosso Nelson, "padrinho emocional" que motivou este meu humilde blog, o responsável por perpetuar este nobre espírito tricolor de saber aguardar o resultado, ou se Nelson já se identificara com esse comportamento quando ainda torcia pelo clube, de calças curtas, à distância, através dos relatos dos irmãos.
Esse comportamento combina perfeitamente com nosso longo histórico de vitórias dramáticas, cardíacas, nos minutos finais, empenhando arrancadas hercúleas. Há momentos na história de um clube também que escapam à tradição. Há momentos em que pagamos pela soberba, pelo peso do favoritismo. Peço perdão ao amigo tricolor de trazer más lembranças, mas é preciso não esquecer as derrotas pra não repetir o erro corriqueiro no futebol...Bragantino, em 91, São Caetano, em 2000, Paulista, em 2005, LDU, em 2008. Caímos de pé, nesta última, há de se frisar. Não acredito, entretanto, que este time que está aí se deixe levar
pela euforia coletiva. Muitos que estão aí já participaram da grande revolução de 2009, quando ousamos desafiar e vencer os 98 % de chances de rebaixamento, saindo "do caos", não "para a liderança", mas para o título do ano seguinte. Todo mundo ali - jogadores, dirigentes e comissão técnica - sabe bem que no mundo do futebol, milagres são possíveis e que o maior erro é não considerar a possibilidade de derrota.
Nossa torcida tb parece bem consciente... comemorando jogo a jogo, mas evitando o "já é campeão". Aquele notório e perigosíssimo "já é campeão" que o "digníssimo" Renato Maurício Prado, do Globo, anda pregando em sua coluna. Curioso que se observarmos que logo ele, que esteve sempre dizendo que o Flu não vinha jogando nada, contado com a sorte de campeão, vem agora com esse "merecidíssimo" tetra campeonato... "Sinceridade"? Será que ele se venceu pelos números da campanha? Ou simplesmente adota uma estratégia "secadora" para tentar contagiar nossa torcida e o time de Abel?
Mas este "já ganhou" não combina com a torcida tricolor. Tudo bem que, motivada pela virada sobre a Ponte Preta nos minutos finais, chegou a ensaiar um "É campeão!"... mas passada a embriaguez momentânea da batalha vencida, todos trataram de pisar os pés no chão... com as velhas sandálias franciscanas.
Seja qual for o resultado de mais tarde, a imagem que quero passar da torcida tricolor é somente a da imagem histórica, do apoio de nossa torcida ao time de guerreiros, que realmente lutaram até o fim.
Continuemos com esse espírito. Lutem até o fim!
Adivinham a autoria? ...Pois não dou três segundo pra pensar: Nelson Rodrigues, óbvio!
Provavelmente nunca saberemos, no entanto, se foi o nosso Nelson, "padrinho emocional" que motivou este meu humilde blog, o responsável por perpetuar este nobre espírito tricolor de saber aguardar o resultado, ou se Nelson já se identificara com esse comportamento quando ainda torcia pelo clube, de calças curtas, à distância, através dos relatos dos irmãos.
Esse comportamento combina perfeitamente com nosso longo histórico de vitórias dramáticas, cardíacas, nos minutos finais, empenhando arrancadas hercúleas. Há momentos na história de um clube também que escapam à tradição. Há momentos em que pagamos pela soberba, pelo peso do favoritismo. Peço perdão ao amigo tricolor de trazer más lembranças, mas é preciso não esquecer as derrotas pra não repetir o erro corriqueiro no futebol...Bragantino, em 91, São Caetano, em 2000, Paulista, em 2005, LDU, em 2008. Caímos de pé, nesta última, há de se frisar. Não acredito, entretanto, que este time que está aí se deixe levar
pela euforia coletiva. Muitos que estão aí já participaram da grande revolução de 2009, quando ousamos desafiar e vencer os 98 % de chances de rebaixamento, saindo "do caos", não "para a liderança", mas para o título do ano seguinte. Todo mundo ali - jogadores, dirigentes e comissão técnica - sabe bem que no mundo do futebol, milagres são possíveis e que o maior erro é não considerar a possibilidade de derrota.
Nossa torcida tb parece bem consciente... comemorando jogo a jogo, mas evitando o "já é campeão". Aquele notório e perigosíssimo "já é campeão" que o "digníssimo" Renato Maurício Prado, do Globo, anda pregando em sua coluna. Curioso que se observarmos que logo ele, que esteve sempre dizendo que o Flu não vinha jogando nada, contado com a sorte de campeão, vem agora com esse "merecidíssimo" tetra campeonato... "Sinceridade"? Será que ele se venceu pelos números da campanha? Ou simplesmente adota uma estratégia "secadora" para tentar contagiar nossa torcida e o time de Abel?
Mas este "já ganhou" não combina com a torcida tricolor. Tudo bem que, motivada pela virada sobre a Ponte Preta nos minutos finais, chegou a ensaiar um "É campeão!"... mas passada a embriaguez momentânea da batalha vencida, todos trataram de pisar os pés no chão... com as velhas sandálias franciscanas.
Seja qual for o resultado de mais tarde, a imagem que quero passar da torcida tricolor é somente a da imagem histórica, do apoio de nossa torcida ao time de guerreiros, que realmente lutaram até o fim.
Continuemos com esse espírito. Lutem até o fim!
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Seleção do Fluminense de todos os tempos (feita em 2006).
Ilustração e montagem de 2006
A ilustração acima foi feita como um teste para um projeto editorial que acabou não indo para frente. Como foi feita em 2006, não pôde compreender heróis de grandes conquistas que vieram depois, como Conca, Deco ou Fred.
A ilustração acima foi feita como um teste para um projeto editorial que acabou não indo para frente. Como foi feita em 2006, não pôde compreender heróis de grandes conquistas que vieram depois, como Conca, Deco ou Fred.
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