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Tricolor desde vidas passadas... mas com a lembrança mais remota de torcedor em 1983, no gol do Assis aos 45 do segundo tempo. Um começo e tanto! Interesses diversificados sobre artes em geral (literatura, cinema, teatro, música, quadrinhos, animação, artes plásticas).

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Homenagem a Félix.

Felix em ação pelo Fluminense. 

Em vista do triste falecimento do grande goleiro Felix, que marcou uma carreira de conquistas no Fluminense e na seleção brasileira, além de figurar no rol dos 5 grandes goleiros da história do clube (Marcos carneiro de Mendonça, Batatais, Castilho e Paulo Victor completam a lista, que está prestes a aumentar com o atual Diego Cavalieri), o blog Cultura tricolor não poderia deixar de dedicar um post a este grande goleiro que tão honradamente fechou o arco tricolor durante quase uma década. Outro dia foi o colunista rubro-negro Renato Mauricio Prado quem dedicou sua coluna a Felix, lembrando que chegou a encontrá-lo como vendedor da Eletrolux, após encerrar sua brilhante carreira no futebol, de conquistar seis títulos de campeão carioca pelo Fluminense, além de três taças Guanabara e um Campeonato Brasileiro, em 1970.  Pela seleção brasileira, um título mundial, uma Copa Roca e uma Rio Branco. (vide lista de títulos abaixo).
O Wikipedia nos informa que Felix Miéli Venerando teria nascido em São Paulo, na véspera do natal de 1937. Começou cedo a carreira, se tornou profissional aos 15 anos de idade, defendendo o gol do Juventus da Moca, onde permaneceu até 1955. Estreou na Portuguesa no ano seguinte defendendo a Lusa numa edição  internacional do torneio Rio-São Paulo contra o New Old Boys da Argentina.  



Felix no campo do Fluminense. 


Vendido ao Fluminense por 150 mil cruzeiros em 1968, se consagraria no nosso tricolor das Laranjeiras e seria defendo as nossas cores que garantira a vaga no gol titular da seleção brasileira que traria definitivamente a Taça Jules Rimet para o Brasil. Na coluna do já citado RMP, editor de esportes do Globo, nota-se uma denúncia de uma tremenda injustiça de um jornal, o qual ele não cita o nome, que teria estampado a seguinte manchete após a conquista no México: "Tri-campeões apesar de Felix". Será que fora algum órgão da imprensa paulistana, historicamente especialista em  desacreditar os jogadores convocados de times cariocas (Vide 1994) ?  A injustiça pode ser comprovada se percebermos a atuação decisiva de Felix em jogos decisivos contra Uruguai e Inglaterra, onde fechara o gol brasileiro. Mas felizmente, Felix é muito maior que isso. Seu nome está na história, sua foto integrando fortes equipes nos posteres de campeão do Fluminense e da seleção. 
No sábado seguinte a seu falecimento, por coincidência, em jogo realizado dois dias após o centésimo aniversário do saudoso Nelson Rodrigues, o time do Fluminense prestou uma primeira linda homenagem, com o time inteiro entrando em campo com camisa de goleiro, e o nome de Félix nas costas. A segunda homenagem, viria com dois gols de Thiago Neves, na belíssima vitória por 2x1 sobre o Vasco, em dupla homenagem: Nelson Rodrigues e Félix. 



Fred entra em campo com a camisa de goleiro e o nome de Felix nas costas
(fotos de Globo.com). 
Títulos:
Fluminense
Seleção Brasileira


O time que, com a vitória consagrou a melhor marca em um turno do Brasileirão da fase de pontos corridos. Um dia especial, de luto, mas de homenagens a Felix e ao centenário do nosso maior cronista, completos na última quinta-feira, dois dias antes da partida.  

Abaixo, charge de Henfil com Felix à frente do repórter. 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

100 anos de Nelson Rodrigues


Em homenagem ao centenário de Nelson, algumas fotos e ilustrações já usadas em outros posts do blog, e um link especial da homenagem feita pelo Jornal O Globo de hj, periódico em que Nelson trabalhou durante muitos anos!
Saudações tricolores, Nelson!

http://oglobo.globo.com/infograficos/nelson-rodrigues/






terça-feira, 21 de agosto de 2012

"Aquele sutil abraço "


1969. No final do ano anterior, o decreto do AI-5 aumentava a tensão entre oposição e a ditadura militar que se instaurara no país cinco anos antes. Gilberto Gil e Caetano foram-digamos- convidados a se retirar do país. Em Londres, a música "Aquele abraço" enaltece elementos essenciais da cultura carioca, a começar pelo Cristo Redentor, de constantes "braços abertos" sobre a Guanabara.; mas discretamente manifestava a tristeza daqueles que não podem retornar por tempo indeterminado à sua terra natal, por discordância política. Um lamento pela perda da liberdade, que os afastava dos amigos e familiares, além dos pequenos prazeres da cidade, da praia, do calor tropical,  do carnaval, do futebol. Falando em futebol, quem conhece a letra da música "Aquele abraço", gravada no lado B de Gilberto Gil 1969 (disco lançado pela Philips, neste ano, também conhecido por Cérebro Eletrônico, primeira faixa do Lado A)  sabe muito bem que ele homenageia um único clube da cidade, o de maior torcida, que aliás, não é o time do compositor: "Alô, torcida do Flamengo, aquele abraço!" Homenageia o futebol do Rio através da imensa torida rubro-negra, apesar do próprio ser assumidamente tricolor. Será? 




 Gilberto Gil durante seu período de exílio
.
Só que 1969 foi justamente o ano em que o Fluminense se sagrara campeão numa final épica contra o Flamengo, com o gol de Flavio definindo o resultado final depois dos 30 do segundo tempo. Jogo este que mereceu uma das melhores crônicas de Nelson Rodrigues, bem como tiras debochadas de Henfil, recentemente mostradas no blog, junto com imagens do canal 100, ficha técnica e outras imagens.
Pois bem, se rubro-negros alegarem se tratar de mera suposição, temos na manga outro argumento precioso a nosso favor...o Flamengo surge na letra de Gil rimando com qual nome? Realengo. Realengo foi o local onde Gil esteve preso na época em que fora forçado a deixar o país, junto com Caetano.     
Se a rima imediatamente anterior demonstra ironia e procura cutcar o regime sem que a censura pudesse perceber, parece sugestivo que ele quisesse dar uma provocada sutil na torcida rival... uma sutileza digna da elegância tricolor. Neste mesmo blog, basta procurar por Chico Buarque, que veremos outro exemplo de fidalguia, ao agradecer o "gentil presente de grego" dado por Cyro Monteiro por ocasião do nascimento de uma de suas filhas.
Voltando ao Gil, se a intenção foi provocar nossos fregueses de decisões ou não, pouco importa. Importa que na próxima grande final, poderemos cantar após virar um jogo que lhes dêm chance de empate, com um aos 49 do segundo tempo, você pode lembrar de cantar assim: "Alô, torcida do Flamengo, aquele abraaaaçooooo". 

Saudações tricolores!
Abaixo, vocês podem conferir a letra de Aquele Abraço e a lista de músicas do disco no site oficial de Gil.    
http://www.vagalume.com.br/gilberto-gil/aquele-abraco.html

http://www.gilbertogil.com.br/sec_disco_interno.php?id=4

Humilde aristocracia de guerreiros.


No último post do blog, o propósito era demonstrar uma perspectiva sobre a torcida do Fluminense, partindo de um humorista assumidamente rubro-negro, que marcou sua carreira pela firme posição política ligada aos valores socialistas, e pelo permanente patrulhamento contra o regime golpista que havia freado o processo de democratização do país . Em suas tiras sobre futebol para o Jornal dos Sports, o Fluminense se transformou no pretexto para cutucar (com arame farpado) a parcela civil elitista, cujo apoio foi fundamental para que se formasse a conspiração militar contra o governo de jango. Vale lembrar que o humor trabalha com ideias caricaturais e generalizantes. Se o Fluminense representava a aristocracia, estava ali, ao lado do botafoguense, o alvo a se almejar. 

Mas no mesmo jornal em que Henfil tinha seu espaço para lembrar o torcedor que ele vivia numa ditadura , um certo Nelson Rodrigues poderia transformar o embate cultural entre cronista e cartunista, um duelo de Titãs, digno dos melhores Fla-Flus de todos os tempos. Basta lembrar que estamos tratando de dois nomes que marcaram cada um a seu modo, transformações profundas na cultura brasileira. E apesar de terem frequentado juntos a redação do JS num período de cerca de meia década, optei por selecionar aqui uma crônica de Nelson bem anterior ao período de Henfil, porque ela traz uma ideia diametralmente oposta a do cartunista, em seu melhor estilo, comparando as emoções do futebol a movimentos revolucionários históricos. Nelson carregava o texto com esplêndidas metáforas caricaturais que acentuavam expressivamente o caráter emocional do velho esporte bretão.  Reparem na crônica de 13 de dezembro de 1959:


"Amigos reparem: _ Há algo de patético na torcida do Fluminense. Nós, com a nossa crassa e ignara simplicidade, temos a mania de falar em "aristocrático clube das Laranjeiras". E eu vos digo: "aristocrático" em termos. Será aristocrático porque, no seu quadro social, falta tudo menos grã-finos. Mas há algo mais no Fluminense (...) do que a aristocracia que lhe atribuem. Mais exato seria dizer que ele é o clube de todas as classes."


***

" Costumamos desprezar o cartola. mas vamos e venhamos: _ com o seu charuto afrontoso e ultrajante, a conspurcar de cinza os tapetes, ele tem seu charme. Sim, no Fluminense, há cartolas em penca. Vocês querem o príncipe? É o que não falta no Fluminense. Esse grã-finismo autêntico é gostoso de se ver. Há também a família de classe média, a mocinha linda, o pai, a mãe, com os seus escrúpulos severos. 
Nada, porém, é tão impressionante como o pé-rapado do Tricolor. Amigos, o Fluminense, com toda a sua aristocracia, tem, na sua torcida, uma plebe que eu chamaria de épica. É uma multidão que o acompanha, com ululante felicidade. Jogue o Fluminense com o escrete húngaro ou com o Casca-Grossa F. C.  e lá estarão esses heróis de pé descalço."

***
" Com a nossa bandeira erguida aos ventos da vitória, lá se vão os pés descalços atrás do time. Eu acredito que esses mesmos homens , em encarnações passadas fizeram a Revolução Francesa e derrubaram bastilhas. Amigos, eis a verdade: _os campeonatos e as revoluções vivem de paixão. Sem sentimento, não se derruba uma bastilha, nem se levanta um campeonato. "


Montagem sobre foto 
*** 

" Eu nunca me esqueço de um episódio a que assisti, há muito tempo. O Fluminense acabava de apanhar um banho não sei de quem. Fora uma derrota ignominiosa, que nenhum torcedor esquece. Na saída do campo, em meio a pesado silêncio tricolor, rompeu um berro solitário e altivo: "Fluminense!" Não podia haver nada de mais inesperado do que um grito trinufal no momento da tristeza e da humilhação. Foi bonito, foi sublime! O autor dessa manifestação isolada era um pobre diabo."    


***


"Um campeonato constitui uma soma de fatores. Um deles, e dos mais importantes, é a torcida. Um time precisa sentir, atrás de si, o berro da torcida. A ausência dessa torcida representa a solidão. nada mais triste do que um time sem ninguém. (...) Mas eu vos digo:_tem razão o Benício Ferreira Filho: _a grande torcida é a do Fluminense. Nada se compara a sua flama e à sua fidelidade. Outras podem ser mais numerosas. Uma torcida, porém, não se vale a pena pela sua expressão numérica. Ela vive e influi no destino das batalhas pela força do sentimento. E a torcida tricolor leva um imperecível estandarte de paixão. "  

Nelson Rodrigues, trechos retirados da crônica "A incomparável torcida tricolor" publicada no JS, dia 03 de dezembro de 1959. (in: Nelson Rodrigues, Filho (org.) O profeta tricolor: Cem anos de Fluminense: crônicas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 

A faixa "Lutem até o fim" se tornou emblemática na mesma época em que a apaixonada torcida tricolor eternizou o "time de Guerreiros", que lhe atendeu o pedido. 

***
Como a gente pode ver, a crônica de Nelson parece tão imperecível quanto a paixão tricolor. Ela pode ser comprovada por episódios lapidares em que a nossa torcida tricolor mostrou a sua força. Um dos mais recentes é justamente o período em que estávamos à beira do caos, com os matemáticos estimando em 97, 98, 99,9 % as possibilidades que o tricolor tinha de cair novamente ao calvário da segundona. Pois enquanto as probabilidades de queda não chegassem a 100, essa nossa torcida encheu o Maracanã verdes de esperança, com o sangue vermelho fervendo, numa clara harmonia, branca como a luz do refletor em torno daquele time, exalando a confiança necessária para o time operar o milagre que operou. Aqueles mesmos - por que não? - que Nelson Rodrigues acreditava terem em outras vidas empenhado tochas e invadido o Palácio de Versailles no 14 Juillet de 1789. Esses mesmos, sim senhor,  ousaram desafiar a lógica da estatística e os "idiotas da objetividade" sucumbiram em sua matemática, numa bestificação irrevogável diante do milagre inexplicável. 

 E se não bastasse a ferrenha batalha  hercúlea dos guerreiros na manutenção do time, após viradas mirabolantes, como nos 3x2 contra o Cruzeiro, após terminar o primeiro tempo perdendo por 2x0, o time ainda ousa ser campeão brasileiro no ano seguinte.
Um detalhe curioso... terminado o campeonato, o Jardel Sebba, velho amigo  rubro-negro, de ter sofrido ao meu lado em muitos Fla-Flus no Maracanã (quando me viu sofrer em apenas um), amigo e colega dos tempos de Santo Inácio e hoje grande jornalista da revista Playboy, me passou por e-mail o deboche do rival por termos comemorado um "não rebaixamento": "Se tivessem mais algumas 38 rodadas, quem sabe o Fluminense não seria campeão?" Respondi qualquer coisa simples, na tradicional humildade franciscana, dando-lhe os parabéns pelo título. Pois bem... 38 rodadas depois, invertem-se os papéis. O Fluminense, de fato, conquistava o mais emocionante campeonato brasileiro da era de pontos corridos e o Flamengo escapava do rebaixamento. A diferença é que a nossa escapada se tornou uma luta contra as estatísticas, contra todas as forças. Era preciso o milagre e o milagre veio com muito mais força do que imaginávamos. De um ano ao outro, escapamos do rebaixamento e levantamos um titulo depois de um incômodo intervalo, e depois de muitos "quases".
 Mandei um e-mail ao meu velho amigo, parabenizando-o por seu poder profético.     
Muito devemos ao time, como devemos ao Cuca, técnico do time na arrancada de 2009, mas devemos também muito à nossa torcida, que com o clássico "Guerreiros, guerreiros, time de guerreiros" mostrou que acreditava naquele time, quando todos acreditavam na sua queda, embalou nossas vitórias e contagiou o país com sua paixão incondicional!  

FLUMINENSEEEEEEEEEEEEEEEEE!


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Fluminense no traço de Henfil


Tira de Henfil, de 17 de junho de 1969, sobre a conquista do campeonato carioca
daquele ano pelo Fluminense. 


Fla-Flu de 691969. Num Fla-Flu épico que já rendeu mais de um post no blog e que  inspirou Nelson Rodrigues na crônica Chega de Humildade, o Fluminense se sagrou campeão ao vencer o velho rival por 3x2, com gol de Flávio no final. Lembrados? Então vamos à visão do rubro-negro Henfil para o acontecimento. 

Luta de classes no futebol Como é sabido, a paixão de Henfil pelo Flamengo era notória e estava ligada às suas convicções políticas na ideologia de assistência ao povo e na rejeição aos hábitos da elite. Henfil transpunha à esfera do futebol, a luta de classes, e os discursos ligados à defesa de direitos das massas em oposição às regalias da burguesia.  

Ditadura Militar e a elite no futebol carioca

Dito isso, percebemos na construção do personagem tricolor de Henfil, um personagem afetado, cujos discursos carregavam um caricato preconceito de classe e raça, abusando de expressões em inglês ou francês. Na charge acima, chega a colocar o pó-de-arroz torturando o bacalhau (torcedor vascaíno)  para que ele contasse onde o rubro-negro urubu  havia se escondido na tentativa de fugir de pagar a sua aposta (em geral, botar ou chocar um ovo imenso).  Prestando um pouco mais de atenção na charge, percebemos uma relação usual: 1969, tortura, esconderijo, interrogatório... isso lembra alguma coisa?  Justamente é essa carga pesada que Henfil procurava retratar...neste caso aqui quem tortura é um representante da elite... acredito que seja bem possível que Henfil estivesse sugerindo a participação direta de parte da elite empresarial que financiava a ditadura. Notem bem que não estou acusando Henfil de sugerir que a torcida do Fluminense estivesse ligada aos órgãos da ditadura, mas que ele trabalhava com representações e no universo das charges esportivas, era o Pó-de-arroz e o Cri-Cri (torcedor do Botafogo) que representavam a elite dominante no universo de suas tirinhas.        

Tempos de perspectiva parcial   
Nelson Rodrigues já dizia em uma de suas crônicas que só acreditaria na imparcialidade do sujeito que declarasse que a própria mãe é vigarista. Se ele mesmo nunca fez questão de esconder, mas ao contrário, de declarar seu amor pelo Fluminense, no mesmo jornal, Henfil também pôde manter sua postura pró- Flamengo. Em sua tira, o rubro-negro raramente se dava mal. Quando se dava mal, havia sempre um culpado maior para pagar as suas apostas: o juiz, o técnico, um jogador.
Sobre o Fla-Flu, dignamente vencido por nós, temos nesta charge uma evidência do legítimo chororô rubro-negro... e do bom humor de Henfil, que encontrou em Armando marques o bode expiatório para o revés rubro-negro.     
Tira de Henfil, de 20 de junho de 1969, sobre a conquista do campeonato carioca
daquele ano pelo Fluminense. 


Em todos os cerca de cinco anos que Henfil era a voz humorística do Jornal dos Sports, foram poucas as vezes em que o Fluminense foi mencionado de uma forma que não fosse pejorativa. Uma delas, a de baixo, é de 1973, quando o veterano tri-campeão Gerson foi pôr seu talento em favor de seu time de coração: o nosso Fluzão. Muito se dizia de sua capacidade de fazer longos e precisos lançamentos, que compensavam a disposição física debilitada pelo fumo (Gerson caiu na boca do povo ao fazer propaganda de cigarro, dizendo que gostava de levar vantagem em tudo, criando o ditado popular- lei de Gerson) .      

Tira de Henfil sobre o Gerson, de 08 de abril de 1973. 

Outra ótima de Henfil, que, por um lado, não chega a ser pejorativa contra o Fluminense, por outro, procurava justificar (ou reclamar) de certas derrotas do seu time nos Fla-Flus... "ai, Jesus!".
                                    Tira de Henfil sobre Fla-Flus, de01 de maio de 1973. 

terça-feira, 31 de julho de 2012

As Tragédias Cariocas, ciclo de leituras em homenagem ao centenário de Nelson Rodrigues

Ilustração minha com design da Roberta de Freitas, 
este é meu trabalho mais recente, de julho de 2012. 

A partir da próxima segunda-feira, na Casa da Gávea começa o ciclo de leituras "As Tragédias Cariocas", quando serão lidas oito peças de Nelson Rodrigues (que faria 100 anos no dia 23 de agosto). Teremos sempre às 21h e sempre às segundas, a leitura de uma das peças teatrais escritas por Nelson, que compõe o que o crítico teatral Sábato Magaldi classificou  como "tragédias cariocas", onde ele entendeu que o autor  explorava o cenário carioca para conduzir suas tragédias.
Muito bem... o que o clico tem a ver com o blog cultura tricolor? Muito. Não apenas pela notória paixão de Nelson Rodrigues pelo Fluminense, mas porque suas peças, volta e meia, faziam menção ao futebol, de alguma forma. Na primeira peça que será "encenada", ou melhor dizendo...lida, na próxima segunda-feira, "A Falecida" tem no jogo entre Fluminense e Vasco, o pano de fundo para o desenrolar da peça, cujo principal protagonista é Tuninho, um fanático cruzmaltino que divide sua preocupação entre seu desempergo, a obsessão fúnebre da mulher e o grande clássico do fim de semana.

Não teremos espaço em todo o conjunto das peças gráficas do evento, para ilustrar cada uma das 8 peças que serão lidas na Casa da Gávea, o que nos levou (minha companheira Roberta de Freitas cuidou do projeto gráfico, enquanto me coube as ilustrações) a buscar uma alternativa mais econômica, onde procurei ilustrar o "universo rodrigueano" de uma forma geral. A homenagem que faço ao futebol, no caso, é o Jornal dos Sports que surge nas mãos de um transeunte paquerado por uma colegial... Notem na primeira página, que a manchete faz nova homenagem ao Nelson e ao nosso querido Fluzão... 

    

Companheiros de luta e de glórias, sou tricolor de coração

 
Ilustração minha de 2009.   
 
Como é o hino do Fluminense? Qualquer criança há de responder sem titubear, cantando os versos da famosa marchinha de Lamartine Babo: "Sou tricolor de coração, sou do clube tantas vezes campeão..." Marchinha composta nos idos da década de 1940.
Mas peraí... se o Fluminense foi fundado em 1902 e o hino cantado até hoje nas arquibancadas é da década de '40, qual era o hino do clube, antes da marchinha de Lamartine?

Primeiro Hino Oficial
Para voltar as histórias dos hinos, devemos lembrar do famoso escritor Paulo Coelho Netto, que segundo o artigo de Manel J. G. Tubino, Bruno Castro de Sousa e Rafael Valladão, teria sido o grande incentivador da vida artística do Fluminense, tendo ocupado ainda o cargo de vice-presidnete do clube. Foi também o pai de João Coelho Neto, o célebre Preguinho, multi-atleta que muito honrou a camisa tricolor em vários esportes, além do futebol, o notório importal era um dos grandes defensores do futebol, tendo travado alguns embates intelectuais com Lima Barreto a esse respeito. O já "tricolor de coração" Coelho Neto também dedicou ao nosso Fluminense o primeiro livro sobre a história do clube, lançado por ocasião do cinquentenário do clube, em 1952. Coelho Neto também protagonizara um episódio que ficaria para a história do futebol (ou para o museu de lendas do velho esporte bretão): a dita "primeira" invasão de campo, quando indignado com a atuação do juiz que insistia em inventar pênaltis e a mandar voltar a cobrança até que o adversário fizeesse o gol, num Fla-Flu que acabou anulado.

Capa da edição de 1952, do livro de Coelho Netto.
No destaque da capa, a Taça Olímpica de 1949, prêmio-homenagem concedido pelo C.O.I. para o clube que mais se destacar em todo o mundo, na organização e promoção dos esportes olímpicos. O Fluminense é o único clube da América Latina a ter merecido a honraria.   

Mas voltando à história do hino, foi dele a autoria do primeiro hino oficial do clube. Segundo o mesmo artigo citado acima, Coelho Neto teria escrito a letra sobre música já existente de  H. Williams, It1s a long long way to Tipperary" - canção popular entre os soldados britânicos durante a Primeira Guerra Mundial - para o hino que foi cantado pela primeira vez, na inauguração da 3ª sede, em 23 de julho (dois dias após o 13º aniversário de fundação do clube) de 1915.  Não é estranho que Coelho Neto tenha buscado inspiração numa canção entoada por soldados no primeiro grande conflito mundial. Os autores do artigo citam o caráter bélico, bem como valores em voga entre a elite carioca. Vale notar o vocabulário rebuscado, ao gosto da época, e a inspiração no discurso higienista em voga entre a elite nacional, que enaltecia o esporte como símbolo de modernidade e civilidade e que acreditava numa suposta supremacia genética: "Assim nas justas se congraça/ Em torno dum ideal viril/
A gente moça, a nova raça/ Do nosso Brasil !"     

O Fluminense é um crisol
Onde apuramos a energia
Ao pleno ar, ao claro sol
Lutando em justas de alegria
O nosso esforço se congraça
Em torno do ideal viril
De avigorar a nova raça
Do nosso Brasil !

Corrige o corpo como artista
Vida imprime à estátua augusta
Faz da argila uma robusta
Peça de aço onde a alma assista
Na arena como na vida
Do forte é sempre a vitória
Do estádio foi que a Grécia acometida
Irrompeu para a glória

Ninguém no clube se pertence
A glória aqui não é pessoal
Quem vence em campo é o Fluminense
Que é, como a Pátria, um ser ideal
Assim nas justas se congraça
Em torno dum ideal viril
A gente moça, a nova raça
Do nosso Brasil !

Adestra a força e doma o impulso
Triunfa, mas sem alardo
O herói é bravo mas galhardo
Tão forte d'alma que de pulso
A força esplende em saúde
E abre o peito à bondade
A força é a expressão viva da virtude
E garbo da mocidade      

Segundo Hino Oficial 
Como o primeiro hino começava a ser motivo de paródias, rapidamente foi encomendado novo hino. Na perspectiva melódica, uma marcha marcial, de inspiração bélica, também ressaltavam aspectos e valores da aristocráticos, enaltecendo o esporte como símbolo de costumes civilizados espelhados no modelo europeu. De autoria de Antônio Cardoso de Menezes Filho, o segundo hino  também sugerem a noção da crença excludente na raça superior: "Disputamos no campo a vitória/ Do mais forte, mais destro e sagaz!"
Nota-se que os hinos foram compostos por famílias tradicionais que perteciam à nata da sociedade carioca. 

Companheiros de luta e de glória
Na peleja incruenta e de paz
Disputamos no campo a vitória
Do mais forte, mais destro e sagaz!

Nossas liças de atletas são mansas
Como as querem os tempos de agora
Ressuscitam heróicas lembranças
Dos olímpicos jogos de outrora

Não nos cega o furor da batalha
Nem nos fere o rival, se é mais forte!
Nossas bolas são nossa metralha
Um bom goal, nosso tiro de morte

Fluminense, avante, ao combate
Nosso nome cerquemos de glória
Já se ouve tocar a rebate
Disputemos no campo a vitória.

A marchinha de Lamartine
 Das marchas marciais às carnavalescas, a popularização dos hinos dos clubes cariocas tem a ver com uma mudança radical do futebol no cenário cultural brasileiro. A popularização do esporte através da imprensa, das transmissões à rádio, já tirara da prática todo o caráter elitista, que clubes como Fluminense se preocupavam em manter até, pelo menos, a profissionalização na década de '30. Entra em cena, Lamartine Babo, um dos maiores nomes do carnaval carioca, autor de pérolas como "Teu cabelo não nega", "Linda Morena" entre outras tantas célebres marchinhas carnavalescas, é representativo dessa gradual transformação.Os novos hinos dos clubes cariocas foram todos compostos por Lamartine na década de 40.  Como afirmaram Tubino, Souza e Valladão, perde-se o garbo, a pompa, a solenidade, ganha-se em alegria, empolgação, popularização, onde o vocabulário mais coloquial ajuda bastante no processo. Algo semelhante já acontecia na imprensa com intensidade desde a década de '30, em que a linguagem direta e fácil do Jornal dos Sports, se torna o exemplo mais representativo. Os hinos (ou marchinhas) de Lamartine exprimem bem este momento. O artigo já citado, percebe que, por mais que tenha perdido muito da carga higienista, a marchinha de Lamartine ainda mantinha o tom nobre a cavalheiresco: " Fascina pela sua disciplina" ou ainda " Vence o Fluminense usando as fidalguias"... 
 Segundo seu biógrafo, diz o artigo, Lamartine escreveu a letra do hino do Fluminense, sobre música do maestro Lyrio Pannicalli, na antiga sorveteria Americana,  depois ocupada pela garagem do Hotel Serrador, prédio hoje adquirido pela Petrobrás, no Rio de Janeiro.  A primeira parte ressalta a fiorte relação entre torcedor e o clube e seus símbolos, como a bandeira ("Salve o querido pavilhão"), enquanto a segunda parte do hino atribui sentido às cores do clube, reforçando um forte vínculo identitário. 

Sou tricolor de coração
Sou do clube tantas vezes campeão
Fascina pela sua disciplina
O Fluminense me domina
Eu tenho amor ao tricolor

Salve o querido pavilhão
Das três cores que traduzem tradição
A paz, a esperança e o vigor
Unido e forte pelo esporte
Eu sou é tricolor

Vence o Fluminense
Com o verde da esperança
Pois quem espera sempre alcança
Clube que orgulha o Brasil
Retumbante de glórias
E vitórias mil

Vence o Fluminense
Com o sangue do encarnado
Com amor e com vigor
Faz a torcida querida
Vibrar de emoção o tri-campeão

Vence o Fluminense
Usando a fidalguia
Branco é paz e harmonia
Brilha com o sol
Da manhã
Qual luz de um refletor
Salve o Tricolor
 
No Vagalume, a melodia do segundo hino oficial.
http://www.vagalume.com.br/hinos-de-futebol/fluminense-oficial.html

No youtube, várias versões do hino popular:

http://www.youtube.com/results?search_query=Hino+do+Fluminense&oq=Hino+do+Fluminense&gs_l=youtube.3..35i39j0l9.749.6294.0.6601.14.14.0.0.0.0.1009.2689.2j3j2j5-1j0j1.9.0...0.0...1ac.Xl2fjW4moaY

Fontes: artigo TUBINO, Manuel José Gomes; SOUZA, Bruno Castro e VALLADÃO, Rafael. " Uma análise acerca do conteúdo dos hinos oficiais e populares dos principais clubes cariocas de futebol da primeira república ao Estado Novo."  http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/751/75117016010.pdf


(http://www.campeoesdofutebol.com.br/fluminense_hino.html)