Ilustração e montagem de 2006
A ilustração acima foi feita como um teste para um projeto editorial que acabou não indo para frente. Como foi feita em 2006, não pôde compreender heróis de grandes conquistas que vieram depois, como Conca, Deco ou Fred.
Inspirados nas três cores que traduzem tradição, o Blog Cultura Tricolor procura oferecer ao exigente torcedor tricolor, um entretenimento à altura de seu bom gosto, com tudo que está relacionado à cultura e ao nosso tricolor: falamos de música, teatro, cinema, charges, história, artes visuais. Desse conjunto, selecionamos tudo que está relacionado aos nossos símbolos, às nossas conquistas,aos nossos ídolos e às inúmeras homenagens de ilustres tricolores.
Quem sou eu
- Flavio Pessoa
- Tricolor desde vidas passadas... mas com a lembrança mais remota de torcedor em 1983, no gol do Assis aos 45 do segundo tempo. Um começo e tanto! Interesses diversificados sobre artes em geral (literatura, cinema, teatro, música, quadrinhos, animação, artes plásticas).
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Franciscana humildade e vitórias cardíacas.
Vejam bem o que estão dizendo de nossa última vitória...frisam os erros de arbitragem... curioso que não vemos tanta empolgação quando o prejudicado somos nós. Outras tantas vezes tb dizem que o adversário pressionou o tempo todo e que nas raras oportunidades que tivemos, marcamos. Um time "aplicado", cirúrgico", que joga "com o resultado"...pois bem, contra a Ponte, em São Januário, o jogo foi um tanto diferente. Sofremos um revés inacreditável logo no primeiro minuto de partida. Um daqueles chutes no ângulo que nem nosso grande Cavalieri conseguiu defender, apesar do esforço, e de ter chegado bem perto disso. Um milímetro acima, e o travessão talvez salvasse aquele gol. Mas o gol sofrido empurrou o time pra frente. E, como a bola passava riscando, mas insistia em não entrar, o que se viu foi um massacre... enquanto a Ponte só se preocupava em se defender e em fazer cêra... num interminável festival de cai-cai, sob as barbas do mesmo fraco juiz que acusam de nos ter ajudado. Domingo foi a vez do goleiro deles fazer milagres... e quando o jogo ia se aproximando do fim, conseguimos os dois gols que garantiam os três pontos. Com erros de arbitragem... pode até ser, embora a falta seja discutível. O pênalti , a meu ver, não foi. Mas se a ideia é contabilizar erros a nosso favor, seria justo que se metesse na contagem, inúmeros erros gritantes que nos prejudicaram, como no gol estranhamento anulado (o bandeira só levantou a bandeira, depois que o Fred já havia passado o goleiro e mandava a bola para o gol vazio). Eu disse que seria justo, sim, mas na verdade, acho melhor que não o façam. Será bom para nós, que desmereçam nossa trajetória, por mais impressionante que seja em números. Disse que será bom e já explico.
"Amigos, cabe agora ao Fluminense fingir-se de morto." afirmou certa vez Nelson Rodrigues em dezembro de 70, dias antes da conquista do primeiro brasileirão. Já falamos em outros momentos da importância da humildade nas nossas grandes conquistas. Boa parte de nossa sala de troféus se deve à força de um conjunto, à união, à determinação, mas sobretudo, à humildade. Creio que o momento atual é mais do que oportuno a resgatar uma crônica do velho dramaturgo tricolor, dada a nossa trajetória. Vejam bem... é bom que minimizem nossa trajetória histórica. Eu, desde já, quero agradecer imensamente à grande imprensa esportiva carioca (sem ironia), do jornal e da TV, bem como nossos adversários por constantemente frisar os erros de arbitragem a nosso favor, ou a pressão sofrida em muitos jogos. Como ensina nosso trovador maior, é preciso sempre vestir as sandálias da humildade e "fingir-se de morto". Deixemos que digam, pois ajuda a afastar o ameaçador "já ganhou". O Fluminense não é o time do "Já ganhou"...é o time do "Eu acredito". O "Já ganhou" é que derrotou nossa seleção em 1950. Naquela mesma copa, a seleção começou sem tanto crédito... com as goleadas sobre a Suécia e a Espanha, na fase final, que passamos a de fato, "antecipar" a comemoração... antecipamos a comemoração para adiar a primeira conquista.
Aquarela inspirada em fotografia de José Medeiros, registrando um flagrante da final da Copa de 50. Brasil perdia para o Uruguai diante de 200 mil pessoas que já se consideravam campeãs mundiais desde a goelada contra a Espanha. O "já ganhou" se transformou no maior trauma futebolístico do país.
O Fluminense tem um histórico um tanto diferente do que vemos no time atual. Hoje em dia todos falam do elenco tricolor, repleto de craques no campo e no banco. Mas temos uma peculiaridade nossa. Somos do time que mais vezes foi campeão com equipes desacreditadas por adversários! Desde o título de 51, quando com um time de desconhecidos o Flu ia batendo os rivais pela contagem mínima... "Líder por uma semana", ironizava Nelson a piada dos rivais pelos botequins da cidade: "daí pra frente o Fluminense foi sempre o líder por uma semana." Aquele time foi campeão carioca e mundial. Alguns dos desconhecidos eram Castilho, Telê e Didi... "Timinho ?" Jamais! Mas foi assim que aquele time entrou pra história.
Muitas outras vezes, a coisa se repetiu... em todas as décadas. Foi assim em 59, em 69, no brasileirão de 70, em 83, no carioca, 84 no segundo Brasileirão, e novamente no carioca de 95. O Vasco era o então Tri-campeão, lutava pelo tetra,o Flamengo havia se reforçado para as comemorações de seu centenário. com contratações de peso, como o campeão do mundo Romário, saldando sua chegada com um desfile pela cidade em corpo de bombeiros, e o nosso velho lateral esquerdo Branco. O Botafogo que viria a ser o campeão brasileiro no mesmo ano, também havia se reforçado, contava com Túlio em sua melhor fase, Donizete (o Pantera), com uma zaga de respeito: Gottardo e Gonçalves. O Fluminense havia feito contratações pontuais de "ilustres desconhecidos". Sua aposta mais famosa era o polêmico Renato Gaúcho, que já vinha se desgastando em passagens mornas por outros clubes brasileiros e muitos davam sua carreira como encerrada. Perguntei a amigos em quem apostavam para conquistar o carioca. Ninguém lembrou do Fluminense. Graças a Deus. Fomos campeões depois de 10 anos, num dos mais emocionantes campeonatos cariocas de todos os tempos.
Voltando à crônica de Nelson, às vésperas da conquista de 1970, o dramaturgo nos conta que numa roda de amigos, fez a pergunta: Quem ganha o Robertão (Taça Roberto Gomes Pedrosa, como era chamada a principal disputa nacional, reconhecida há dois anos como brasileirão)?" No que..."Houve uma unanimidade feroz: _ O Cruzeiro. "
" E todo mundo pôs-se a entoar hinos ao time de Tostão. Era o melhor do Brasil. Houve um momento em que, no fundo de minha timidez, ousei a pergunta: '_ E o Fluminense?' A resposta foi uma gargalhada. (...) E, então, um dos presentes tratou de demonstrar o que lhe parecia ser uma verdade inapelável e eterna: o Tricolor não tem um craque, um único craque." Desmereciam Félix, o lateral Marco Antônio, talvez por ter sido reserva de Everaldo, e desprezaram igualmente o diabo louro Samarone, Lula, Flavio, enfim...
Acontece que na época, todos os grandes tri-campeões de 70 e outros mais que tinham futebol de sobra para estarem entre eles, e que já ganhavam notoriedade. Basta ver Pelé, Carlos Alberto Torres e Edu, no Santos; Tostão, Piazza e Dirceu lopes, no Cruzeiro; Jairzinho no Botafogo, Leão e Ademir da Guia, no Palmeiras; Rivelino, no Corínthians; Gerson no São Paulo, Everaldo no Grêmio, Carpegiani no Inter e Dario no Atlético. Haja fôlego! Em vista do arsenal adversário, quem haveria de acreditar na conquista tricolor...além dos próprios tricolores? Mas em 20 de dezembro daquele ano, o Fluminense antecipava o presente de natal da nossa querida torcida.
Falamos de 1951, de 1995, de 1970, e deixei pro fim o primeiro título do meu Fluminense que testemunhei. Também em 1983 fomos desacreditados. O Flamengo vinha com um time que acabava de se sagrar tri-campeão brasileiro, o Vasco disputava o bi, com o timaço encabeçado pelo atual presidente Roberto Dinamite, no auge de sua carreira. O Botafogo, de Baltazar, o Bangu, bancado pelo bicheiro Castor de Andrade, vinha de Cláudio Adão, Marinho e Arturzinho, que apesar de não ter vencido nem o primeiro, nem o segundo turno, foi o que mais acumulou pontos nos dois. O Fluminense, que não era campeão desde 80, vinha de campanhas mornas, manteve alguns jogadores como o lateral Aldo, o zagueiro Duílio e o meia Delei, promovera jovens valores da base como o goleiro Paulo Victor e o zagueiro Ricardo Gomes, e contratara promessas ainda desconhecidas do Sul como Branco, Jandir, Leomir, Tato e uma dupla que já fazia certo sucesso no Atlético-PR, Washington e Assis. Quase ninguém sabia que esse time formaria uma geração vencedora, que conquistaria o segundo brasileiro, e o tri estadual, todos de maneira emocionante, com direito a grandes decisões contra Flamengo (a primeira delas com um gol ao apagar os refletores), Bangu (de virada, com o segundo gol aos 42 do segundo tempo), e Vasco (na primeira final de um campeonato nacional entre cariocas). E o Fluminense venceu os três primeiros certames que eu comecei a acompanhar, frequentando ao nosso querido Maracanã.
É, portanto, fundamental esse constante desacreditar no nosso tricolor. Não se enganem quanto aos pontuais elogios. Só recebemos elogios e vãs tentativas de nos "secar" com afirmações rubro-negras de que já somos campeões ( lê-se Renato Maurício Prado), como se ele fosse escrever o mesmo, caso o seu time estivesse na mesma situação. Pois lembremos a ele, que quem gosta de antecipar comemorações e ficar com o grito travado na garganta não somos nós. Ao mesmo tempo, RMP adora ressaltar as supostas ajudas de arbitragem, a tal "sorte de campeão", a pressão adversária a cada peleja. Deixemos que falem, que desdenhem... por mais que gozemos agora de uma invejável vantagem de 9 pontos, todos sabemos que nada está ganho, como todos sabemos que as vitórias tem sido suadas. É assim e tem que ser assim! Nossas vitórias são sempre cardíacas.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Homenagem a Félix.
Felix em ação pelo Fluminense.
O Wikipedia nos informa que Felix Miéli Venerando teria nascido em São Paulo, na véspera do natal de 1937. Começou cedo a carreira, se tornou profissional aos 15 anos de idade, defendendo o gol do Juventus da Moca, onde permaneceu até 1955. Estreou na Portuguesa no ano seguinte defendendo a Lusa numa edição internacional do torneio Rio-São Paulo contra o New Old Boys da Argentina.
Felix no campo do Fluminense.
Vendido ao Fluminense por 150 mil cruzeiros em 1968, se consagraria no nosso tricolor das Laranjeiras e seria defendo as nossas cores que garantira a vaga no gol titular da seleção brasileira que traria definitivamente a Taça Jules Rimet para o Brasil. Na coluna do já citado RMP, editor de esportes do Globo, nota-se uma denúncia de uma tremenda injustiça de um jornal, o qual ele não cita o nome, que teria estampado a seguinte manchete após a conquista no México: "Tri-campeões apesar de Felix". Será que fora algum órgão da imprensa paulistana, historicamente especialista em desacreditar os jogadores convocados de times cariocas (Vide 1994) ? A injustiça pode ser comprovada se percebermos a atuação decisiva de Felix em jogos decisivos contra Uruguai e Inglaterra, onde fechara o gol brasileiro. Mas felizmente, Felix é muito maior que isso. Seu nome está na história, sua foto integrando fortes equipes nos posteres de campeão do Fluminense e da seleção.
No sábado seguinte a seu falecimento, por coincidência, em jogo realizado dois dias após o centésimo aniversário do saudoso Nelson Rodrigues, o time do Fluminense prestou uma primeira linda homenagem, com o time inteiro entrando em campo com camisa de goleiro, e o nome de Félix nas costas. A segunda homenagem, viria com dois gols de Thiago Neves, na belíssima vitória por 2x1 sobre o Vasco, em dupla homenagem: Nelson Rodrigues e Félix.
Fred entra em campo com a camisa de goleiro e o nome de Felix nas costas
(fotos de Globo.com).
(fotos de Globo.com).
Títulos:
- Fluminense
Campeonato Carioca: 1969, 1971, 1973, 1975 e 1976
Taça Guanabara: 1969, 1971 e 1975
Campeonato Brasileiro: 1970
Torneio Internacional de Verão do Rio de Janeiro: 1973
Torneio de Paris: 1976
- Seleção Brasileira
x
Copa Rio Branco: 1967 e 1968
- Copa do Mundo FIFA: 1970
x
Copa Roca: 1971
O time que, com a vitória consagrou a melhor marca em um turno do Brasileirão da fase de pontos corridos. Um dia especial, de luto, mas de homenagens a Felix e ao centenário do nosso maior cronista, completos na última quinta-feira, dois dias antes da partida.
Abaixo, charge de Henfil com Felix à frente do repórter.
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
100 anos de Nelson Rodrigues
Saudações tricolores, Nelson!
http://oglobo.globo.com/infograficos/nelson-rodrigues/
terça-feira, 21 de agosto de 2012
"Aquele sutil abraço "
1969. No final do ano anterior, o decreto do AI-5 aumentava a tensão entre oposição e a ditadura militar que se instaurara no país cinco anos antes. Gilberto Gil e Caetano foram-digamos- convidados a se retirar do país. Em Londres, a música "Aquele abraço" enaltece elementos essenciais da cultura carioca, a começar pelo Cristo Redentor, de constantes "braços abertos" sobre a Guanabara.; mas discretamente manifestava a tristeza daqueles que não podem retornar por tempo indeterminado à sua terra natal, por discordância política. Um lamento pela perda da liberdade, que os afastava dos amigos e familiares, além dos pequenos prazeres da cidade, da praia, do calor tropical, do carnaval, do futebol. Falando em futebol, quem conhece a letra da música "Aquele abraço", gravada no lado B de Gilberto Gil 1969 (disco lançado pela Philips, neste ano, também conhecido por Cérebro Eletrônico, primeira faixa do Lado A) sabe muito bem que ele homenageia um único clube da cidade, o de maior torcida, que aliás, não é o time do compositor: "Alô, torcida do Flamengo, aquele abraço!" Homenageia o futebol do Rio através da imensa torida rubro-negra, apesar do próprio ser assumidamente tricolor. Será?
Gilberto Gil durante seu período de exílio
.
Só que 1969 foi justamente o ano em que o Fluminense se sagrara campeão numa final épica contra o Flamengo, com o gol de Flavio definindo o resultado final depois dos 30 do segundo tempo. Jogo este que mereceu uma das melhores crônicas de Nelson Rodrigues, bem como tiras debochadas de Henfil, recentemente mostradas no blog, junto com imagens do canal 100, ficha técnica e outras imagens.
Pois bem, se rubro-negros alegarem se tratar de mera suposição, temos na manga outro argumento precioso a nosso favor...o Flamengo surge na letra de Gil rimando com qual nome? Realengo. Realengo foi o local onde Gil esteve preso na época em que fora forçado a deixar o país, junto com Caetano.
Se a rima imediatamente anterior demonstra ironia e procura cutcar o regime sem que a censura pudesse perceber, parece sugestivo que ele quisesse dar uma provocada sutil na torcida rival... uma sutileza digna da elegância tricolor. Neste mesmo blog, basta procurar por Chico Buarque, que veremos outro exemplo de fidalguia, ao agradecer o "gentil presente de grego" dado por Cyro Monteiro por ocasião do nascimento de uma de suas filhas.
Voltando ao Gil, se a intenção foi provocar nossos fregueses de decisões ou não, pouco importa. Importa que na próxima grande final, poderemos cantar após virar um jogo que lhes dêm chance de empate, com um aos 49 do segundo tempo, você pode lembrar de cantar assim: "Alô, torcida do Flamengo, aquele abraaaaçooooo".
Pois bem, se rubro-negros alegarem se tratar de mera suposição, temos na manga outro argumento precioso a nosso favor...o Flamengo surge na letra de Gil rimando com qual nome? Realengo. Realengo foi o local onde Gil esteve preso na época em que fora forçado a deixar o país, junto com Caetano.
Se a rima imediatamente anterior demonstra ironia e procura cutcar o regime sem que a censura pudesse perceber, parece sugestivo que ele quisesse dar uma provocada sutil na torcida rival... uma sutileza digna da elegância tricolor. Neste mesmo blog, basta procurar por Chico Buarque, que veremos outro exemplo de fidalguia, ao agradecer o "gentil presente de grego" dado por Cyro Monteiro por ocasião do nascimento de uma de suas filhas.
Voltando ao Gil, se a intenção foi provocar nossos fregueses de decisões ou não, pouco importa. Importa que na próxima grande final, poderemos cantar após virar um jogo que lhes dêm chance de empate, com um aos 49 do segundo tempo, você pode lembrar de cantar assim: "Alô, torcida do Flamengo, aquele abraaaaçooooo".
Saudações tricolores!
Abaixo, vocês podem conferir a letra de Aquele Abraço e a lista de músicas do disco no site oficial de Gil.
Abaixo, vocês podem conferir a letra de Aquele Abraço e a lista de músicas do disco no site oficial de Gil.
http://www.vagalume.com.br/gilberto-gil/aquele-abraco.html
Humilde aristocracia de guerreiros.
No último post do blog, o propósito era demonstrar uma perspectiva sobre a torcida do Fluminense, partindo de um humorista assumidamente rubro-negro, que marcou sua carreira pela firme posição política ligada aos valores socialistas, e pelo permanente patrulhamento contra o regime golpista que havia freado o processo de democratização do país . Em suas tiras sobre futebol para o Jornal dos Sports, o Fluminense se transformou no pretexto para cutucar (com arame farpado) a parcela civil elitista, cujo apoio foi fundamental para que se formasse a conspiração militar contra o governo de jango. Vale lembrar que o humor trabalha com ideias caricaturais e generalizantes. Se o Fluminense representava a aristocracia, estava ali, ao lado do botafoguense, o alvo a se almejar.
Mas no mesmo jornal em que Henfil tinha seu espaço para lembrar o torcedor que ele vivia numa ditadura , um certo Nelson Rodrigues poderia transformar o embate cultural entre cronista e cartunista, um duelo de Titãs, digno dos melhores Fla-Flus de todos os tempos. Basta lembrar que estamos tratando de dois nomes que marcaram cada um a seu modo, transformações profundas na cultura brasileira. E apesar de terem frequentado juntos a redação do JS num período de cerca de meia década, optei por selecionar aqui uma crônica de Nelson bem anterior ao período de Henfil, porque ela traz uma ideia diametralmente oposta a do cartunista, em seu melhor estilo, comparando as emoções do futebol a movimentos revolucionários históricos. Nelson carregava o texto com esplêndidas metáforas caricaturais que acentuavam expressivamente o caráter emocional do velho esporte bretão. Reparem na crônica de 13 de dezembro de 1959:
"Amigos reparem: _ Há algo de patético na torcida do Fluminense. Nós, com a nossa crassa e ignara simplicidade, temos a mania de falar em "aristocrático clube das Laranjeiras". E eu vos digo: "aristocrático" em termos. Será aristocrático porque, no seu quadro social, falta tudo menos grã-finos. Mas há algo mais no Fluminense (...) do que a aristocracia que lhe atribuem. Mais exato seria dizer que ele é o clube de todas as classes."
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" Costumamos desprezar o cartola. mas vamos e venhamos: _ com o seu charuto afrontoso e ultrajante, a conspurcar de cinza os tapetes, ele tem seu charme. Sim, no Fluminense, há cartolas em penca. Vocês querem o príncipe? É o que não falta no Fluminense. Esse grã-finismo autêntico é gostoso de se ver. Há também a família de classe média, a mocinha linda, o pai, a mãe, com os seus escrúpulos severos.
Nada, porém, é tão impressionante como o pé-rapado do Tricolor. Amigos, o Fluminense, com toda a sua aristocracia, tem, na sua torcida, uma plebe que eu chamaria de épica. É uma multidão que o acompanha, com ululante felicidade. Jogue o Fluminense com o escrete húngaro ou com o Casca-Grossa F. C. e lá estarão esses heróis de pé descalço."
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" Com a nossa bandeira erguida aos ventos da vitória, lá se vão os pés descalços atrás do time. Eu acredito que esses mesmos homens , em encarnações passadas fizeram a Revolução Francesa e derrubaram bastilhas. Amigos, eis a verdade: _os campeonatos e as revoluções vivem de paixão. Sem sentimento, não se derruba uma bastilha, nem se levanta um campeonato. "
Montagem sobre foto
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" Eu nunca me esqueço de um episódio a que assisti, há muito tempo. O Fluminense acabava de apanhar um banho não sei de quem. Fora uma derrota ignominiosa, que nenhum torcedor esquece. Na saída do campo, em meio a pesado silêncio tricolor, rompeu um berro solitário e altivo: "Fluminense!" Não podia haver nada de mais inesperado do que um grito trinufal no momento da tristeza e da humilhação. Foi bonito, foi sublime! O autor dessa manifestação isolada era um pobre diabo."
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"Um campeonato constitui uma soma de fatores. Um deles, e dos mais importantes, é a torcida. Um time precisa sentir, atrás de si, o berro da torcida. A ausência dessa torcida representa a solidão. nada mais triste do que um time sem ninguém. (...) Mas eu vos digo:_tem razão o Benício Ferreira Filho: _a grande torcida é a do Fluminense. Nada se compara a sua flama e à sua fidelidade. Outras podem ser mais numerosas. Uma torcida, porém, não se vale a pena pela sua expressão numérica. Ela vive e influi no destino das batalhas pela força do sentimento. E a torcida tricolor leva um imperecível estandarte de paixão. "
Nelson Rodrigues, trechos retirados da crônica "A incomparável torcida tricolor" publicada no JS, dia 03 de dezembro de 1959. (in: Nelson Rodrigues, Filho (org.) O profeta tricolor: Cem anos de Fluminense: crônicas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
A faixa "Lutem até o fim" se tornou emblemática na mesma época em que a apaixonada torcida tricolor eternizou o "time de Guerreiros", que lhe atendeu o pedido.
***
Como a gente pode ver, a crônica de Nelson parece tão imperecível quanto a paixão tricolor. Ela pode ser comprovada por episódios lapidares em que a nossa torcida tricolor mostrou a sua força. Um dos mais recentes é justamente o período em que estávamos à beira do caos, com os matemáticos estimando em 97, 98, 99,9 % as possibilidades que o tricolor tinha de cair novamente ao calvário da segundona. Pois enquanto as probabilidades de queda não chegassem a 100, essa nossa torcida encheu o Maracanã verdes de esperança, com o sangue vermelho fervendo, numa clara harmonia, branca como a luz do refletor em torno daquele time, exalando a confiança necessária para o time operar o milagre que operou. Aqueles mesmos - por que não? - que Nelson Rodrigues acreditava terem em outras vidas empenhado tochas e invadido o Palácio de Versailles no 14 Juillet de 1789. Esses mesmos, sim senhor, ousaram desafiar a lógica da estatística e os "idiotas da objetividade" sucumbiram em sua matemática, numa bestificação irrevogável diante do milagre inexplicável.
E se não bastasse a ferrenha batalha hercúlea dos guerreiros na manutenção do time, após viradas mirabolantes, como nos 3x2 contra o Cruzeiro, após terminar o primeiro tempo perdendo por 2x0, o time ainda ousa ser campeão brasileiro no ano seguinte.
Um detalhe curioso... terminado o campeonato, o Jardel Sebba, velho amigo rubro-negro, de ter sofrido ao meu lado em muitos Fla-Flus no Maracanã (quando me viu sofrer em apenas um), amigo e colega dos tempos de Santo Inácio e hoje grande jornalista da revista Playboy, me passou por e-mail o deboche do rival por termos comemorado um "não rebaixamento": "Se tivessem mais algumas 38 rodadas, quem sabe o Fluminense não seria campeão?" Respondi qualquer coisa simples, na tradicional humildade franciscana, dando-lhe os parabéns pelo título. Pois bem... 38 rodadas depois, invertem-se os papéis. O Fluminense, de fato, conquistava o mais emocionante campeonato brasileiro da era de pontos corridos e o Flamengo escapava do rebaixamento. A diferença é que a nossa escapada se tornou uma luta contra as estatísticas, contra todas as forças. Era preciso o milagre e o milagre veio com muito mais força do que imaginávamos. De um ano ao outro, escapamos do rebaixamento e levantamos um titulo depois de um incômodo intervalo, e depois de muitos "quases".
Mandei um e-mail ao meu velho amigo, parabenizando-o por seu poder profético.
Mandei um e-mail ao meu velho amigo, parabenizando-o por seu poder profético.
Muito devemos ao time, como devemos ao Cuca, técnico do time na arrancada de 2009, mas devemos também muito à nossa torcida, que com o clássico "Guerreiros, guerreiros, time de guerreiros" mostrou que acreditava naquele time, quando todos acreditavam na sua queda, embalou nossas vitórias e contagiou o país com sua paixão incondicional!
FLUMINENSEEEEEEEEEEEEEEEEE!
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
O Fluminense no traço de Henfil
Tira de Henfil, de 17 de junho de 1969, sobre a conquista do campeonato carioca
daquele ano pelo Fluminense.
daquele ano pelo Fluminense.
Fla-Flu de 691969. Num Fla-Flu épico que já rendeu mais de um post no blog e que inspirou Nelson Rodrigues na crônica Chega de Humildade, o Fluminense se sagrou campeão ao vencer o velho rival por 3x2, com gol de Flávio no final. Lembrados? Então vamos à visão do rubro-negro Henfil para o acontecimento.
Luta de classes no futebol Como é sabido, a paixão de Henfil pelo Flamengo era notória e estava ligada às suas convicções políticas na ideologia de assistência ao povo e na rejeição aos hábitos da elite. Henfil transpunha à esfera do futebol, a luta de classes, e os discursos ligados à defesa de direitos das massas em oposição às regalias da burguesia.
Ditadura Militar e a elite no futebol carioca
Dito isso, percebemos na construção do personagem tricolor de Henfil, um personagem afetado, cujos discursos carregavam um caricato preconceito de classe e raça, abusando de expressões em inglês ou francês. Na charge acima, chega a colocar o pó-de-arroz torturando o bacalhau (torcedor vascaíno) para que ele contasse onde o rubro-negro urubu havia se escondido na tentativa de fugir de pagar a sua aposta (em geral, botar ou chocar um ovo imenso). Prestando um pouco mais de atenção na charge, percebemos uma relação usual: 1969, tortura, esconderijo, interrogatório... isso lembra alguma coisa? Justamente é essa carga pesada que Henfil procurava retratar...neste caso aqui quem tortura é um representante da elite... acredito que seja bem possível que Henfil estivesse sugerindo a participação direta de parte da elite empresarial que financiava a ditadura. Notem bem que não estou acusando Henfil de sugerir que a torcida do Fluminense estivesse ligada aos órgãos da ditadura, mas que ele trabalhava com representações e no universo das charges esportivas, era o Pó-de-arroz e o Cri-Cri (torcedor do Botafogo) que representavam a elite dominante no universo de suas tirinhas.
Tempos de perspectiva parcial
Nelson Rodrigues já dizia em uma de suas crônicas que só acreditaria na imparcialidade do sujeito que declarasse que a própria mãe é vigarista. Se ele mesmo nunca fez questão de esconder, mas ao contrário, de declarar seu amor pelo Fluminense, no mesmo jornal, Henfil também pôde manter sua postura pró- Flamengo. Em sua tira, o rubro-negro raramente se dava mal. Quando se dava mal, havia sempre um culpado maior para pagar as suas apostas: o juiz, o técnico, um jogador.
Sobre o Fla-Flu, dignamente vencido por nós, temos nesta charge uma evidência do legítimo chororô rubro-negro... e do bom humor de Henfil, que encontrou em Armando marques o bode expiatório para o revés rubro-negro.
Sobre o Fla-Flu, dignamente vencido por nós, temos nesta charge uma evidência do legítimo chororô rubro-negro... e do bom humor de Henfil, que encontrou em Armando marques o bode expiatório para o revés rubro-negro.
Tira de Henfil, de 20 de junho de 1969, sobre a conquista do campeonato carioca
daquele ano pelo Fluminense.
daquele ano pelo Fluminense.
Em todos os cerca de cinco anos que Henfil era a voz humorística do Jornal dos Sports, foram poucas as vezes em que o Fluminense foi mencionado de uma forma que não fosse pejorativa. Uma delas, a de baixo, é de 1973, quando o veterano tri-campeão Gerson foi pôr seu talento em favor de seu time de coração: o nosso Fluzão. Muito se dizia de sua capacidade de fazer longos e precisos lançamentos, que compensavam a disposição física debilitada pelo fumo (Gerson caiu na boca do povo ao fazer propaganda de cigarro, dizendo que gostava de levar vantagem em tudo, criando o ditado popular- lei de Gerson) .
Tira de Henfil sobre o Gerson, de 08 de abril de 1973.
Tira de Henfil sobre Fla-Flus, de01 de maio de 1973.
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