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Tricolor desde vidas passadas... mas com a lembrança mais remota de torcedor em 1983, no gol do Assis aos 45 do segundo tempo. Um começo e tanto! Interesses diversificados sobre artes em geral (literatura, cinema, teatro, música, quadrinhos, animação, artes plásticas).

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Humilde aristocracia de guerreiros.


No último post do blog, o propósito era demonstrar uma perspectiva sobre a torcida do Fluminense, partindo de um humorista assumidamente rubro-negro, que marcou sua carreira pela firme posição política ligada aos valores socialistas, e pelo permanente patrulhamento contra o regime golpista que havia freado o processo de democratização do país . Em suas tiras sobre futebol para o Jornal dos Sports, o Fluminense se transformou no pretexto para cutucar (com arame farpado) a parcela civil elitista, cujo apoio foi fundamental para que se formasse a conspiração militar contra o governo de jango. Vale lembrar que o humor trabalha com ideias caricaturais e generalizantes. Se o Fluminense representava a aristocracia, estava ali, ao lado do botafoguense, o alvo a se almejar. 

Mas no mesmo jornal em que Henfil tinha seu espaço para lembrar o torcedor que ele vivia numa ditadura , um certo Nelson Rodrigues poderia transformar o embate cultural entre cronista e cartunista, um duelo de Titãs, digno dos melhores Fla-Flus de todos os tempos. Basta lembrar que estamos tratando de dois nomes que marcaram cada um a seu modo, transformações profundas na cultura brasileira. E apesar de terem frequentado juntos a redação do JS num período de cerca de meia década, optei por selecionar aqui uma crônica de Nelson bem anterior ao período de Henfil, porque ela traz uma ideia diametralmente oposta a do cartunista, em seu melhor estilo, comparando as emoções do futebol a movimentos revolucionários históricos. Nelson carregava o texto com esplêndidas metáforas caricaturais que acentuavam expressivamente o caráter emocional do velho esporte bretão.  Reparem na crônica de 13 de dezembro de 1959:


"Amigos reparem: _ Há algo de patético na torcida do Fluminense. Nós, com a nossa crassa e ignara simplicidade, temos a mania de falar em "aristocrático clube das Laranjeiras". E eu vos digo: "aristocrático" em termos. Será aristocrático porque, no seu quadro social, falta tudo menos grã-finos. Mas há algo mais no Fluminense (...) do que a aristocracia que lhe atribuem. Mais exato seria dizer que ele é o clube de todas as classes."


***

" Costumamos desprezar o cartola. mas vamos e venhamos: _ com o seu charuto afrontoso e ultrajante, a conspurcar de cinza os tapetes, ele tem seu charme. Sim, no Fluminense, há cartolas em penca. Vocês querem o príncipe? É o que não falta no Fluminense. Esse grã-finismo autêntico é gostoso de se ver. Há também a família de classe média, a mocinha linda, o pai, a mãe, com os seus escrúpulos severos. 
Nada, porém, é tão impressionante como o pé-rapado do Tricolor. Amigos, o Fluminense, com toda a sua aristocracia, tem, na sua torcida, uma plebe que eu chamaria de épica. É uma multidão que o acompanha, com ululante felicidade. Jogue o Fluminense com o escrete húngaro ou com o Casca-Grossa F. C.  e lá estarão esses heróis de pé descalço."

***
" Com a nossa bandeira erguida aos ventos da vitória, lá se vão os pés descalços atrás do time. Eu acredito que esses mesmos homens , em encarnações passadas fizeram a Revolução Francesa e derrubaram bastilhas. Amigos, eis a verdade: _os campeonatos e as revoluções vivem de paixão. Sem sentimento, não se derruba uma bastilha, nem se levanta um campeonato. "


Montagem sobre foto 
*** 

" Eu nunca me esqueço de um episódio a que assisti, há muito tempo. O Fluminense acabava de apanhar um banho não sei de quem. Fora uma derrota ignominiosa, que nenhum torcedor esquece. Na saída do campo, em meio a pesado silêncio tricolor, rompeu um berro solitário e altivo: "Fluminense!" Não podia haver nada de mais inesperado do que um grito trinufal no momento da tristeza e da humilhação. Foi bonito, foi sublime! O autor dessa manifestação isolada era um pobre diabo."    


***


"Um campeonato constitui uma soma de fatores. Um deles, e dos mais importantes, é a torcida. Um time precisa sentir, atrás de si, o berro da torcida. A ausência dessa torcida representa a solidão. nada mais triste do que um time sem ninguém. (...) Mas eu vos digo:_tem razão o Benício Ferreira Filho: _a grande torcida é a do Fluminense. Nada se compara a sua flama e à sua fidelidade. Outras podem ser mais numerosas. Uma torcida, porém, não se vale a pena pela sua expressão numérica. Ela vive e influi no destino das batalhas pela força do sentimento. E a torcida tricolor leva um imperecível estandarte de paixão. "  

Nelson Rodrigues, trechos retirados da crônica "A incomparável torcida tricolor" publicada no JS, dia 03 de dezembro de 1959. (in: Nelson Rodrigues, Filho (org.) O profeta tricolor: Cem anos de Fluminense: crônicas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 

A faixa "Lutem até o fim" se tornou emblemática na mesma época em que a apaixonada torcida tricolor eternizou o "time de Guerreiros", que lhe atendeu o pedido. 

***
Como a gente pode ver, a crônica de Nelson parece tão imperecível quanto a paixão tricolor. Ela pode ser comprovada por episódios lapidares em que a nossa torcida tricolor mostrou a sua força. Um dos mais recentes é justamente o período em que estávamos à beira do caos, com os matemáticos estimando em 97, 98, 99,9 % as possibilidades que o tricolor tinha de cair novamente ao calvário da segundona. Pois enquanto as probabilidades de queda não chegassem a 100, essa nossa torcida encheu o Maracanã verdes de esperança, com o sangue vermelho fervendo, numa clara harmonia, branca como a luz do refletor em torno daquele time, exalando a confiança necessária para o time operar o milagre que operou. Aqueles mesmos - por que não? - que Nelson Rodrigues acreditava terem em outras vidas empenhado tochas e invadido o Palácio de Versailles no 14 Juillet de 1789. Esses mesmos, sim senhor,  ousaram desafiar a lógica da estatística e os "idiotas da objetividade" sucumbiram em sua matemática, numa bestificação irrevogável diante do milagre inexplicável. 

 E se não bastasse a ferrenha batalha  hercúlea dos guerreiros na manutenção do time, após viradas mirabolantes, como nos 3x2 contra o Cruzeiro, após terminar o primeiro tempo perdendo por 2x0, o time ainda ousa ser campeão brasileiro no ano seguinte.
Um detalhe curioso... terminado o campeonato, o Jardel Sebba, velho amigo  rubro-negro, de ter sofrido ao meu lado em muitos Fla-Flus no Maracanã (quando me viu sofrer em apenas um), amigo e colega dos tempos de Santo Inácio e hoje grande jornalista da revista Playboy, me passou por e-mail o deboche do rival por termos comemorado um "não rebaixamento": "Se tivessem mais algumas 38 rodadas, quem sabe o Fluminense não seria campeão?" Respondi qualquer coisa simples, na tradicional humildade franciscana, dando-lhe os parabéns pelo título. Pois bem... 38 rodadas depois, invertem-se os papéis. O Fluminense, de fato, conquistava o mais emocionante campeonato brasileiro da era de pontos corridos e o Flamengo escapava do rebaixamento. A diferença é que a nossa escapada se tornou uma luta contra as estatísticas, contra todas as forças. Era preciso o milagre e o milagre veio com muito mais força do que imaginávamos. De um ano ao outro, escapamos do rebaixamento e levantamos um titulo depois de um incômodo intervalo, e depois de muitos "quases".
 Mandei um e-mail ao meu velho amigo, parabenizando-o por seu poder profético.     
Muito devemos ao time, como devemos ao Cuca, técnico do time na arrancada de 2009, mas devemos também muito à nossa torcida, que com o clássico "Guerreiros, guerreiros, time de guerreiros" mostrou que acreditava naquele time, quando todos acreditavam na sua queda, embalou nossas vitórias e contagiou o país com sua paixão incondicional!  

FLUMINENSEEEEEEEEEEEEEEEEE!


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Fluminense no traço de Henfil


Tira de Henfil, de 17 de junho de 1969, sobre a conquista do campeonato carioca
daquele ano pelo Fluminense. 


Fla-Flu de 691969. Num Fla-Flu épico que já rendeu mais de um post no blog e que  inspirou Nelson Rodrigues na crônica Chega de Humildade, o Fluminense se sagrou campeão ao vencer o velho rival por 3x2, com gol de Flávio no final. Lembrados? Então vamos à visão do rubro-negro Henfil para o acontecimento. 

Luta de classes no futebol Como é sabido, a paixão de Henfil pelo Flamengo era notória e estava ligada às suas convicções políticas na ideologia de assistência ao povo e na rejeição aos hábitos da elite. Henfil transpunha à esfera do futebol, a luta de classes, e os discursos ligados à defesa de direitos das massas em oposição às regalias da burguesia.  

Ditadura Militar e a elite no futebol carioca

Dito isso, percebemos na construção do personagem tricolor de Henfil, um personagem afetado, cujos discursos carregavam um caricato preconceito de classe e raça, abusando de expressões em inglês ou francês. Na charge acima, chega a colocar o pó-de-arroz torturando o bacalhau (torcedor vascaíno)  para que ele contasse onde o rubro-negro urubu  havia se escondido na tentativa de fugir de pagar a sua aposta (em geral, botar ou chocar um ovo imenso).  Prestando um pouco mais de atenção na charge, percebemos uma relação usual: 1969, tortura, esconderijo, interrogatório... isso lembra alguma coisa?  Justamente é essa carga pesada que Henfil procurava retratar...neste caso aqui quem tortura é um representante da elite... acredito que seja bem possível que Henfil estivesse sugerindo a participação direta de parte da elite empresarial que financiava a ditadura. Notem bem que não estou acusando Henfil de sugerir que a torcida do Fluminense estivesse ligada aos órgãos da ditadura, mas que ele trabalhava com representações e no universo das charges esportivas, era o Pó-de-arroz e o Cri-Cri (torcedor do Botafogo) que representavam a elite dominante no universo de suas tirinhas.        

Tempos de perspectiva parcial   
Nelson Rodrigues já dizia em uma de suas crônicas que só acreditaria na imparcialidade do sujeito que declarasse que a própria mãe é vigarista. Se ele mesmo nunca fez questão de esconder, mas ao contrário, de declarar seu amor pelo Fluminense, no mesmo jornal, Henfil também pôde manter sua postura pró- Flamengo. Em sua tira, o rubro-negro raramente se dava mal. Quando se dava mal, havia sempre um culpado maior para pagar as suas apostas: o juiz, o técnico, um jogador.
Sobre o Fla-Flu, dignamente vencido por nós, temos nesta charge uma evidência do legítimo chororô rubro-negro... e do bom humor de Henfil, que encontrou em Armando marques o bode expiatório para o revés rubro-negro.     
Tira de Henfil, de 20 de junho de 1969, sobre a conquista do campeonato carioca
daquele ano pelo Fluminense. 


Em todos os cerca de cinco anos que Henfil era a voz humorística do Jornal dos Sports, foram poucas as vezes em que o Fluminense foi mencionado de uma forma que não fosse pejorativa. Uma delas, a de baixo, é de 1973, quando o veterano tri-campeão Gerson foi pôr seu talento em favor de seu time de coração: o nosso Fluzão. Muito se dizia de sua capacidade de fazer longos e precisos lançamentos, que compensavam a disposição física debilitada pelo fumo (Gerson caiu na boca do povo ao fazer propaganda de cigarro, dizendo que gostava de levar vantagem em tudo, criando o ditado popular- lei de Gerson) .      

Tira de Henfil sobre o Gerson, de 08 de abril de 1973. 

Outra ótima de Henfil, que, por um lado, não chega a ser pejorativa contra o Fluminense, por outro, procurava justificar (ou reclamar) de certas derrotas do seu time nos Fla-Flus... "ai, Jesus!".
                                    Tira de Henfil sobre Fla-Flus, de01 de maio de 1973. 

terça-feira, 31 de julho de 2012

As Tragédias Cariocas, ciclo de leituras em homenagem ao centenário de Nelson Rodrigues

Ilustração minha com design da Roberta de Freitas, 
este é meu trabalho mais recente, de julho de 2012. 

A partir da próxima segunda-feira, na Casa da Gávea começa o ciclo de leituras "As Tragédias Cariocas", quando serão lidas oito peças de Nelson Rodrigues (que faria 100 anos no dia 23 de agosto). Teremos sempre às 21h e sempre às segundas, a leitura de uma das peças teatrais escritas por Nelson, que compõe o que o crítico teatral Sábato Magaldi classificou  como "tragédias cariocas", onde ele entendeu que o autor  explorava o cenário carioca para conduzir suas tragédias.
Muito bem... o que o clico tem a ver com o blog cultura tricolor? Muito. Não apenas pela notória paixão de Nelson Rodrigues pelo Fluminense, mas porque suas peças, volta e meia, faziam menção ao futebol, de alguma forma. Na primeira peça que será "encenada", ou melhor dizendo...lida, na próxima segunda-feira, "A Falecida" tem no jogo entre Fluminense e Vasco, o pano de fundo para o desenrolar da peça, cujo principal protagonista é Tuninho, um fanático cruzmaltino que divide sua preocupação entre seu desempergo, a obsessão fúnebre da mulher e o grande clássico do fim de semana.

Não teremos espaço em todo o conjunto das peças gráficas do evento, para ilustrar cada uma das 8 peças que serão lidas na Casa da Gávea, o que nos levou (minha companheira Roberta de Freitas cuidou do projeto gráfico, enquanto me coube as ilustrações) a buscar uma alternativa mais econômica, onde procurei ilustrar o "universo rodrigueano" de uma forma geral. A homenagem que faço ao futebol, no caso, é o Jornal dos Sports que surge nas mãos de um transeunte paquerado por uma colegial... Notem na primeira página, que a manchete faz nova homenagem ao Nelson e ao nosso querido Fluzão... 

    

Companheiros de luta e de glórias, sou tricolor de coração

 
Ilustração minha de 2009.   
 
Como é o hino do Fluminense? Qualquer criança há de responder sem titubear, cantando os versos da famosa marchinha de Lamartine Babo: "Sou tricolor de coração, sou do clube tantas vezes campeão..." Marchinha composta nos idos da década de 1940.
Mas peraí... se o Fluminense foi fundado em 1902 e o hino cantado até hoje nas arquibancadas é da década de '40, qual era o hino do clube, antes da marchinha de Lamartine?

Primeiro Hino Oficial
Para voltar as histórias dos hinos, devemos lembrar do famoso escritor Paulo Coelho Netto, que segundo o artigo de Manel J. G. Tubino, Bruno Castro de Sousa e Rafael Valladão, teria sido o grande incentivador da vida artística do Fluminense, tendo ocupado ainda o cargo de vice-presidnete do clube. Foi também o pai de João Coelho Neto, o célebre Preguinho, multi-atleta que muito honrou a camisa tricolor em vários esportes, além do futebol, o notório importal era um dos grandes defensores do futebol, tendo travado alguns embates intelectuais com Lima Barreto a esse respeito. O já "tricolor de coração" Coelho Neto também dedicou ao nosso Fluminense o primeiro livro sobre a história do clube, lançado por ocasião do cinquentenário do clube, em 1952. Coelho Neto também protagonizara um episódio que ficaria para a história do futebol (ou para o museu de lendas do velho esporte bretão): a dita "primeira" invasão de campo, quando indignado com a atuação do juiz que insistia em inventar pênaltis e a mandar voltar a cobrança até que o adversário fizeesse o gol, num Fla-Flu que acabou anulado.

Capa da edição de 1952, do livro de Coelho Netto.
No destaque da capa, a Taça Olímpica de 1949, prêmio-homenagem concedido pelo C.O.I. para o clube que mais se destacar em todo o mundo, na organização e promoção dos esportes olímpicos. O Fluminense é o único clube da América Latina a ter merecido a honraria.   

Mas voltando à história do hino, foi dele a autoria do primeiro hino oficial do clube. Segundo o mesmo artigo citado acima, Coelho Neto teria escrito a letra sobre música já existente de  H. Williams, It1s a long long way to Tipperary" - canção popular entre os soldados britânicos durante a Primeira Guerra Mundial - para o hino que foi cantado pela primeira vez, na inauguração da 3ª sede, em 23 de julho (dois dias após o 13º aniversário de fundação do clube) de 1915.  Não é estranho que Coelho Neto tenha buscado inspiração numa canção entoada por soldados no primeiro grande conflito mundial. Os autores do artigo citam o caráter bélico, bem como valores em voga entre a elite carioca. Vale notar o vocabulário rebuscado, ao gosto da época, e a inspiração no discurso higienista em voga entre a elite nacional, que enaltecia o esporte como símbolo de modernidade e civilidade e que acreditava numa suposta supremacia genética: "Assim nas justas se congraça/ Em torno dum ideal viril/
A gente moça, a nova raça/ Do nosso Brasil !"     

O Fluminense é um crisol
Onde apuramos a energia
Ao pleno ar, ao claro sol
Lutando em justas de alegria
O nosso esforço se congraça
Em torno do ideal viril
De avigorar a nova raça
Do nosso Brasil !

Corrige o corpo como artista
Vida imprime à estátua augusta
Faz da argila uma robusta
Peça de aço onde a alma assista
Na arena como na vida
Do forte é sempre a vitória
Do estádio foi que a Grécia acometida
Irrompeu para a glória

Ninguém no clube se pertence
A glória aqui não é pessoal
Quem vence em campo é o Fluminense
Que é, como a Pátria, um ser ideal
Assim nas justas se congraça
Em torno dum ideal viril
A gente moça, a nova raça
Do nosso Brasil !

Adestra a força e doma o impulso
Triunfa, mas sem alardo
O herói é bravo mas galhardo
Tão forte d'alma que de pulso
A força esplende em saúde
E abre o peito à bondade
A força é a expressão viva da virtude
E garbo da mocidade      

Segundo Hino Oficial 
Como o primeiro hino começava a ser motivo de paródias, rapidamente foi encomendado novo hino. Na perspectiva melódica, uma marcha marcial, de inspiração bélica, também ressaltavam aspectos e valores da aristocráticos, enaltecendo o esporte como símbolo de costumes civilizados espelhados no modelo europeu. De autoria de Antônio Cardoso de Menezes Filho, o segundo hino  também sugerem a noção da crença excludente na raça superior: "Disputamos no campo a vitória/ Do mais forte, mais destro e sagaz!"
Nota-se que os hinos foram compostos por famílias tradicionais que perteciam à nata da sociedade carioca. 

Companheiros de luta e de glória
Na peleja incruenta e de paz
Disputamos no campo a vitória
Do mais forte, mais destro e sagaz!

Nossas liças de atletas são mansas
Como as querem os tempos de agora
Ressuscitam heróicas lembranças
Dos olímpicos jogos de outrora

Não nos cega o furor da batalha
Nem nos fere o rival, se é mais forte!
Nossas bolas são nossa metralha
Um bom goal, nosso tiro de morte

Fluminense, avante, ao combate
Nosso nome cerquemos de glória
Já se ouve tocar a rebate
Disputemos no campo a vitória.

A marchinha de Lamartine
 Das marchas marciais às carnavalescas, a popularização dos hinos dos clubes cariocas tem a ver com uma mudança radical do futebol no cenário cultural brasileiro. A popularização do esporte através da imprensa, das transmissões à rádio, já tirara da prática todo o caráter elitista, que clubes como Fluminense se preocupavam em manter até, pelo menos, a profissionalização na década de '30. Entra em cena, Lamartine Babo, um dos maiores nomes do carnaval carioca, autor de pérolas como "Teu cabelo não nega", "Linda Morena" entre outras tantas célebres marchinhas carnavalescas, é representativo dessa gradual transformação.Os novos hinos dos clubes cariocas foram todos compostos por Lamartine na década de 40.  Como afirmaram Tubino, Souza e Valladão, perde-se o garbo, a pompa, a solenidade, ganha-se em alegria, empolgação, popularização, onde o vocabulário mais coloquial ajuda bastante no processo. Algo semelhante já acontecia na imprensa com intensidade desde a década de '30, em que a linguagem direta e fácil do Jornal dos Sports, se torna o exemplo mais representativo. Os hinos (ou marchinhas) de Lamartine exprimem bem este momento. O artigo já citado, percebe que, por mais que tenha perdido muito da carga higienista, a marchinha de Lamartine ainda mantinha o tom nobre a cavalheiresco: " Fascina pela sua disciplina" ou ainda " Vence o Fluminense usando as fidalguias"... 
 Segundo seu biógrafo, diz o artigo, Lamartine escreveu a letra do hino do Fluminense, sobre música do maestro Lyrio Pannicalli, na antiga sorveteria Americana,  depois ocupada pela garagem do Hotel Serrador, prédio hoje adquirido pela Petrobrás, no Rio de Janeiro.  A primeira parte ressalta a fiorte relação entre torcedor e o clube e seus símbolos, como a bandeira ("Salve o querido pavilhão"), enquanto a segunda parte do hino atribui sentido às cores do clube, reforçando um forte vínculo identitário. 

Sou tricolor de coração
Sou do clube tantas vezes campeão
Fascina pela sua disciplina
O Fluminense me domina
Eu tenho amor ao tricolor

Salve o querido pavilhão
Das três cores que traduzem tradição
A paz, a esperança e o vigor
Unido e forte pelo esporte
Eu sou é tricolor

Vence o Fluminense
Com o verde da esperança
Pois quem espera sempre alcança
Clube que orgulha o Brasil
Retumbante de glórias
E vitórias mil

Vence o Fluminense
Com o sangue do encarnado
Com amor e com vigor
Faz a torcida querida
Vibrar de emoção o tri-campeão

Vence o Fluminense
Usando a fidalguia
Branco é paz e harmonia
Brilha com o sol
Da manhã
Qual luz de um refletor
Salve o Tricolor
 
No Vagalume, a melodia do segundo hino oficial.
http://www.vagalume.com.br/hinos-de-futebol/fluminense-oficial.html

No youtube, várias versões do hino popular:

http://www.youtube.com/results?search_query=Hino+do+Fluminense&oq=Hino+do+Fluminense&gs_l=youtube.3..35i39j0l9.749.6294.0.6601.14.14.0.0.0.0.1009.2689.2j3j2j5-1j0j1.9.0...0.0...1ac.Xl2fjW4moaY

Fontes: artigo TUBINO, Manuel José Gomes; SOUZA, Bruno Castro e VALLADÃO, Rafael. " Uma análise acerca do conteúdo dos hinos oficiais e populares dos principais clubes cariocas de futebol da primeira república ao Estado Novo."  http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/751/75117016010.pdf


(http://www.campeoesdofutebol.com.br/fluminense_hino.html)

terça-feira, 24 de julho de 2012

Torcida nas Laranjeiras na década de 1920

A torcida tricolor nas Laranjeiras, na década de 1920. 
Abaixo, a foto que inspirou a ilustração acima. 


Duas moças se destacam no meio de um público de futebol, onde o predomínio masculino ainda maior que o de hoje. Na frente, elas parecem mais sorridentes que seus companheiros de arquibancada. Na ilustração procurei destacar ainda mais as moças, combinando seus vestidos nas cores predominantes
da camisa tricolor. 

Nelson, nosso torcedor mais ilustre.

Inspirada em foto clássica de Nelson Rodrigues.

Nelson é um dos nomes mais lembrados no blog cultura tricolor justamente por acreditarmos que ele resume e representa como mais ninguém , a cultura tricolor. O genial escritor, dramaturgo e jornalista comparava, em suas crônicas esportivas,  as emoções do futebol a uma epopeia de um Homero, ou usava romances de Dostoiésvky ou Victor Hugo como referência ou metáfora para histórias da pelota. E o fazia com a mesma naturalidade e humor com que falava em Chacrinha, em chika-bon, com que bebia na cultura popular. Nelson é sem dúvida o nosso trovador maior. Todos as outras torcidas invejam até a raiz do cabelo o nosso Nelson Rodrigues.   


segunda-feira, 23 de julho de 2012

"Nasce o Fluminense"...a perspectiva romântica de Mário Filho

Legenda: 
Texto do Mário Filho, na fonte Courier. Do blog, na Trebuchet.

" Football ? Que vinha a ser "aquilo"? Oscar Cox tentava explicar. Havia um campo. Sim. O ouvinte abria os olhos, procurando ver o campo. Não era difícil imaginar o field. O Clube Brasileiro de Cricket tinha um. A coisa porém, se complicava quando Oscar Cox, balançando a cabeça, dizia que, fora o verde da grama, não existia semelhança alguma entre o campo de cricket e o campo de futebol. O campo de cricket sendo oval, o de futebol, retangular. "Então, dizia o outro, deixando de ver o field do Clube Brasileiro- então eu  não percebo nada". Mário Filho


  
Os fundadores do Fluminense, provavelmente após 1904, 
já com terno tricolor. O primeiro era cinza e branco. 


Mais uma vez fica difícil comprovar até que ponto havia algum exagero no relato de Mário Filho, respaldado apenas pelas lembranças de poucas testemunhas, recortes de jornal de Marcos Carneiro de Mendonça e outros. É também completamente possível que parte da alta aristocracia que, assim como Cox, já tivesse travado contato com o futebol, em viagens à Europa. Também é possível que Mário Filho ignorasse vestígios encontrados posteriormente, que revelem evidências da prática desde fins do século XIX. Longe de  mim querer desvalorizar a deliciosa prosa de Mário Filho,  cujo esforço hercúleo de recontar nuances da história do futebol  já serviu de base como fonte histórica fidedigna. Ao contrário, seu relato ganha mais valor, se percebermos nele mesmo, um vestígio da influência da imprensa na construção da história do futebol. Como extraordinário jornalista que era, interessava-lhe menos a segura veracidade dos relatos, do que, neste caso por exemplo, do caráter dramático e/ou romântico do mito do fundador, do pioneiro, ainda que a História, enquanto ciência se esforce em questionar. Se este herói fundador tiver vencido obstáculos, dificuldades, melhor ainda. O personagem preferido da imprensa: um Hércules e seus 12 trabalhos. O povo gosta de histórias de heróis, que venceram dificuldades e o esporte é um terreno fértil deles. Na crônica de Mário Filho, ele procura reproduzir o irrepetível: o fato ocorrido, com a maior riqueza de detalhes, e ao mesmo tempo, numa linguagem direta, coloquial, aberta ao grande público.  Então, reproduz com a minúcia dos precisos diálogos, Oscar Cox apresentando o futebol a seus amigos. Ao Rio de Janeiro, ou pelo menos, para a alta aristocracia carioca. Vamos à batalha de Cox... 


Football, um novo esporte sem graça?
"Oscar Cox tinha dezessete anos, e acabara de chegar da Suiça. Lá em Lausanne, ele jogava football   pelo Colégio de La Ville. hegando aqui, uma das primeiras coisas que ele queria saber foi"onde se pode jogar football?". Nunca lhe passara pela cabeça que o nome de um "esporte tão conhecido" soasse aos ouvintes de todo mundo- o todo mundo da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro de 97- como um termo misterioso. Quase indecifrável. Quem sabe se mandando buscar uma bola...a ideia encantou Oscar Cox. 

Ele encomendou uma bola Mac Gregor, número seis."

" A bola, porém, não resolvia tudo. Faltava um campo. Faltavam as balizas. Faltavam as redes. Faltavam, os jogadores. E Oscar Cox começou a sentir-se isolado. Mais isolado do que nunca. E agora a impressão que ele experimentava era de fracasso. Às vezes apareciam curiosos. Depois de uns dois chutes, todos paravam, desanimados, achando que o football não tinha nada de engraçado. "Quer saber de uma coisa, Oscar? Desista disso. O football é pau. Cacete como ele só. Não pega.ou você acha que é interessante a gente ficar aqui feito bobo vendo você jogar?" Oscar Cox acabou concordando. Agarrou a bola e levou-a para casa." 



Ilustração de 2009.
Incentivos do pai esportista.
"Como porém, deixar de pensar em football? O velho Emmanuel Cox (...) era o primeiro a animar o filho. Com um exeplo constante de entusiasmo pelo esporte. Fora ele, o velho Jorge Cox, quem tivera a ideia de fundar o Rio Cricket and Atlhetic Association. Parecia impossível, eis a conclusão que chegara Jorge Cox - que não houvesse um clube em Niterói com tanto inglês por perto." Em toda parte do mundo, uma dúzia de ingleses juntos formam um clube. Assim, nasceu em Niterói, o Rio Cricket. E com o Rio Cricket surgia também um campo."
" 'Arranje um team - foi o conselho do velho Jorge Cox a Oscar- e o resto será fácil.' Oscar Cox levou três anos de 98 ao ano primeiro do século XXI, para arranjar um team de football. Só de brasileiros. 
Quem vinha da Europa (...) vinha sabendo um pouco de football. Assim, se foi juntando gente (...)."
O team de brasileiros devia enfrentar um team de ingleses. Qual inglês que não dera um chute numa bola? E aí - era agosto de 1 - bem de manhã cedo, os tenistas do Rio Cricket and Athletic Association tiveram a atenção despertada por umas balizas colocadas nos extremos dos campos de cricket. Eles perguntaram ainda o que era aquilo quando apareceram os jogadores."
Sobre este jogo, a imprensa chegou a se envolver diretamente, referindo-se ao jogo como um Brasil x Inglaterra e aos brasileiros como "nós".  
Enquanto o velho Etchegaray explicava as regras aos tenistas, a bola rolava e Mário Filho vai relatando nuances do confronto. "Uma bola chutada por Caiwood Robinson não fora defendida por Clyto Portela. 'Foi goal - explicou o velho Etchegaray - Goal dos ingleses.' E quando Júlio de Moraes empatou, os tenistas do Rio Cricket compreenderam logo que tinha sido goal também." 





Ao empate com os ingleses, seguiram novos empates com os paulistas, nos primórdios do "Rio-São Paulo".        
  "Que faltava mais? Não bastava jogar aqui e ali, partidas de football. Era preciso mais alguma coisa. Um clube. A ideia do Fluminense (com o nome de Rio Football Club ainda)começava a perturbar as vigílias de Oscar Cox. E ele, um dia, surpreende os amigos com um convite. Quem estivesse de acordo com a fundação de um clube brasileiro de football, deveria comparecer, a hora tal, em tal lugar. E lá compareceu um grupo que se fez de engraçadinho. Oscar Cox deu início à sessão, em tom solene, declarando que, "como todos ali se achavam presentes estavam de acordo com a proposta apresentada"...E uma voz se fez ouvir: "Quem foi que disse que eu estava de acordo? Eu sou contra". O Fluminense teria que esperar, por causa disso, outra oportunidade para nascer."

Curioso destacar aqui a interpretação de Mário Filho, que chega a apresentar os diálogos com precisão de detalhes, atribui apenas a uma gracinha juvenil, a contrariedade de um descontente, sem apurar quem teria sido, quais os seus motivos e muito menos as razões que levavam a sua negativa ter um peso tamanho que inviabilizasse a tão desejada fundação do clube. Mas o episódio, apenas corriqueiro, é usado para reforçar a perseverança de Cox diante das dificuldades. Mas eis que se cumpriria o último obstáculo e no dia 21 de julho de 1902, "os portões da casa de Horácio Costa Santos, que ficava ali na Rua Marquês de Abrantes nº 51, se abriram para a cerimônia de fundação do Fluminense. Lá estavam Horácio Costa Santos, Mario Rocha, Walter Schuback, Felix Frias, Mario Frias, Moutinho, Luiz da Nóbrega Junior, Arthur Gibbons, Virgílio Leite de Oliveira e Silva, Manoel Rios, Américo da Silva Couto, Eurico de Moraes,A. C. Mascarenhas,Alvaro D. Costa, Julio de Moares, A.A. Roberts. E Manoel Rios presidiu a mesa, ladeado por Américo Couto e Oscar Cox. Oscar Cox estava com as mãos frias, de nervoso, e sentia um nó na garganta. Mas era de alegria: o Fluminense deixava de ser um sonho."